O que foi e o que fica

Percorria os olhos pelos quadradinhos impressos em vários tons de cinza procurando a foto na página da quarta turma da oitava série, ano de 1989, quando série ainda era chamada de série – e não ano – e era a última etapa para o cobiçado e temido colegial. O anuário estava caindo aos pedaços, mas continuava sendo guardado para consultas necessárias nestes tempos de Facebook, em que se consegue encontrar e resgatar contato com pessoas de quem não se tem notícias há mais de vinte anos. Estava afoita para localizar aquele que havia lhe mandado o pedido virtual de amizade, desconfiava que tinha estudado com ele na oitava série. Lembrava do nome, Leandro Cionguilletto, a sonoridade era muito familiar e evocava a ocasião em que descobriu que o C poderia ter o som de T. Sim, era o Tiongui, da turma que sentava bem no meio da sala e botava pilha no pessoal do fundão que sempre levava a culpa no final. Achou a foto e agora tinha certeza, ele era da turma dos que se safavam sempre.

A foto em preto e branco do anuário não tinha qualquer semelhança com a imagem do computador e ela considerou que talvez aqueles muitos anos pudessem ter feito bem para o garoto chato e sonso de quem ela agora se recordava bem. Apesar de ser da turma que sentava na primeira fileira da sala – cdf ao extremo e míope – detestava esse pessoalzinho que se fazia de santo e nunca levava o castigo merecido. Qualquer confusão acabava mal para os que tinham a fama e nem sempre a culpa. Mas sua raiva era silenciosa e inútil, nunca teve ânimo de opor resistência às regras dos mais espertos, mesmo que para fazer justiça.

Uma rápida olhadela no perfil do rapaz supriu a falta de convivência nos últimos vinte anos: se formou em administração, casou, teve dois filhos – um casal -, trabalhou em quatro empresas diferentes até abrir a sua própria consultoria que parecia ter pouco mais de um ano. Algumas viagens para o exterior, outras para o Nordeste do Brasil, 658 amigos – dos quais no máximo dez aparecem nas fotos postadas -, diversas mensagens de felicitações no aniversário em oito de abril, pai e mãe ainda vivos, família sorridente na festinha de 95 anos da avó, imagens de pratos apetitosos em restaurantes visitados (todos devidamente registrados com check-in no Foursquare), uma amiga perguntando por que não estavam na missa de domingo passado, os filhos de cara pintada e pincel na mão fazendo arte durante as férias. Este é o atual Tiongui, que não é chamado de Tiongui em nenhuma das mensagens do seu perfil. Deve ter perdido o apelido junto com os amigos da escola, que não estão entre os 658 do Facebook. 

Voltou a olhar a página 56 do anuário e teve vontade de saber o que esses vinte anos tinham feito com cada um de seus colegas. O que havia sobrado daqueles adolescentes que davam as mãos quando cantavam as músicas da Legião Urbana nas missas deliberadamente modernas na capela da escola e que no recreio do mesmo dia isolavam os que não se vestiam ou falavam ou se comportavam de acordo com o estabelecido como normal ou bacana. Óculos grandes, calça jeans de marca genérica, lanche trazido de casa, um pneuzinho que o casaco amarrado na cintura – era regra – deixava escapar, uma timidez não disfarçada, uma postura mais arqueada, qualquer diferença aparente era motivo para a segregação. O bullying sempre existiu, só não tinha nome nesta época. Como estariam hoje os rejeitados? E os algozes, foram absolvidos pelo tempo? E os que conseguiram passar ilesos como ela, que se livrou das gozações mas não foi capaz de oferecer qualquer ajuda ou amparo aos que cantavam Monte Castelo de cabeça baixa? Todos se formaram, trabalharam, casaram, tiveram filhos, família unida, muitos amigos, fizeram viagens e viveram felizes para sempre como o Tiongui no mundo encantado do Facebook?

Voltou a olhar sua foto no livro. No rosto fresco, um meio sorriso que escondia o aparelho prateado nos dentes e um olhar inseguro, mas promissor. Havia hoje nela alguma migalha daquela menina?  Um retrospecto de episódios esquecidos começou a girar como carrossel na sua mente, uma dança de imagens que se alternavam tão rapidamente que ela teve medo de não conseguir reter pelo menos uma no pensamento presente. Mas não se provoca a memória impunemente. Ela se vinga e traz à tona coisas que poderiam ter ficado bem quietinhas e guardadas lá na última gaveta do cérebro.

Foi arrebatada pela lembrança dos chás de cadeira que tomava nos bailinhos e a deixavam com as bochechas ardendo, da inveja velada que sentia das meninas lindas, esguias e autoconfiantes – porque eram lindas e esguias – que dominavam soberanas todos os meninos da escola, do esforço para se manter invisível com suas roupas sem marca compradas na rua Augusta, das mentiras inventadas para faltar nas aulas de natação e não ter que vestir maiô, dos estojos de dois andares que não tinha, das canetinhas com cheirinho de frutas e dos chicletes importados de melancia que também nunca teve.

Subitamente lembrou-se da cena mais triste da sua infância, quando surpreendeu no recreio um menino franzino, branquelo e meio estrábico sentado na última fileira da arquibancada do ginásio de esportes vazio comendo às escondidas uma bisnaguinha embrulhada em papel alumínio e olhando fixamente para a parede suja onde estava encostado. Não precisou nem chegar perto para perceber que seu rosto estava molhado e que seu corpo parecia encolher na ânsia de desaparecer.

Com o estômago revirado, realizou que aqueles – e muitos outros – momentos remotos, mesmo que supostamente esquecidos, ficaram gravados em todas as células do seu corpo, e sorrateiros, reverberam de alguma forma na sua vida atual. O que foi fica na vida de todos os quadradinhos de todas as turmas e todas as séries daquele anuário e de todos os anuários de todas as escolas do mundo. Não pôde evitar que um sorriso venenoso lhe escapasse quando imaginou o Tiongui selecionando cuidadosamente os posts e fotos do Facebook para garantir que nenhum resquício maculoso e depreciativo daquele tempo respingasse na sua vida perfeita.

Decidiu que era melhor deixar as amizades do passado impressas no anuário. Recusou o pedido de amizade, fechou o Facebook e guardou o livro no mesmo armário onde sempre estivera, mas desta vez, duas prateleiras acima, bem longe da vista e do seu alcance.

Sonho em pó

Ontem caiu do céu

Do céu de sol dourado

Dourado que ofusca os olhos e faz esquecer

Esquecer o anteontem e todo o antes de anteontem

Pé no chão, chão de seca, seca que racha

Racha o chão e os sonhos do menino

que sonha inteiro mas quando acorda o sonho quebra

Quebra no meio e depois em pedaços

Pedacinhos que viram pó, como a terra seca

Pó que gruda na cara e faz arder os olhos

e que a lágrima limpa fazendo listras

Listras molhadas nas bochechas vermelhas

inflamadas, inchadas de choro e do tapa estalado

No menino, no irmão, na irmã, no outro irmão

do pai que sente raiva quando vê murchar

o boi, o bode, o pé de milho, de feijão

Chora de fome, mas bate de raiva

De querer verde e só ver marrom

E não sonha mais como o menino

que também sente raiva, mas não bate

Só reza e espera que o pó vire barro

que o caminho árido volte a ser rio

que o boi desencoste da árvore sem folhas

que o bode berre e o milho apareça

que as bochechas parem de latejar

Beberia suas lágrimas se fossem doces

Doces como as lágrimas de Deus

Deus, que só se lembrou ontem

E chorou sobre o sertão.

Moedor de carne

Cortar cebola me faz chorar. Não pela ardência nos olhos, mas de saudade. O aroma ácido que se desprende do interior da cebola nem chega aos meus olhos, antes é aspirado pelo meu nariz evocando a sensação dos almoços de domingo da minha infância, em Pindamonhangaba.

O trigo era hidratado na bacia laranja, reservada só para isso. As cebolas inteiras e peladas se exibiam na pia ao lado da peça enorme de patinho temperada, pronta para ser moída. As crianças se acotovelavam ao redor da minha avó para garantir o lugar na boca do moedor manual, onde as minhoquinhas de carne e trigo saíam fresquinhas pelos buraquinhos e eram modeladas pelas nossas mãos antes de ser devoradas. – Todo mundo lavando as mãos antes de pegar o quibe! Minha mãe tentava colocar ordem enquanto meu avô reclamava: – Aharaedinak que criançada esfomeada! Minha avó emendava tentando esconder um sorriso orgulhoso: – Não consigo nem colocar o quibe na travessa, vocês comem tudo antes, mal esperam sair do moedor! Era o sucesso do almoço aquele quibe cru. Os adultos disfarçavam, mas entre as mãozinhas afoitas das crianças, apareciam mãos maiores – algumas peludas – embaixo da saída do moedor esperando a massa de carne enquanto minha avó girava a manivela pesada de ferro. Só meu avô ficava tranquilo. Luiza nunca o deixaria sem a sua porção especial de quibe cru, sabia que antes de abrir a fila para as crianças ela tinha separado seu pratinho com a carne já temperada com pimenta e canela acompanhada de duas cebolas cruas e inteiras.

Ver meu avô comendo era a melhor parte do almoço. Com a destreza de um legítimo descendente de libaneses e décadas de prática, destacava com as mãos mesmo uma camada inteira da cebola e a preenchia até o topo com o quibe, finalizando a obra de arte com um galhinho de hortelã fincado no pequeno buraco onde o recheio aparecia. A primeira mordida crocante era o ápice do espetáculo. Metade da esfera de cebola recheada de quibe cru desaparecia e a outra metade era engolida na segunda mordida. Em seguida, pegava outra camada grossa de cebola e repetia a preparação esmerada. Era um croc croc croc sem fim, não entendia como meu avô conseguia comer cebola como se fosse maçã. Tão ardida, tão forte, cada mordida que ele dava exalava um aroma que queimava minhas narinas. Me perguntava se com o tempo as pessoas evoluíam e conseguiam mastigar cebolas cruas como ele. Ele já era velho e ainda tão forte, saudável, luminoso. Seria a cebola o seu segredo?

Num destes domingos, resolvi que já era hora de iniciar a minha evolução e dar a primeira mordida. Minha mãe estranhou, perguntou se tinha certeza e eu além de confirmar minha decisão ainda sugeri que ela fizesse o mesmo, pois já tinha perdido tempo demais. Eu ainda era nova, tinha a vida inteira pela frente para me acostumar com o gosto, já minha mãe teria que se apressar a apreciar as mordidas crocantes da cebola para uma velhice mais sadia. Ela ignorou meu conselho e eu, cheia de coragem, dei a mordida fatal que anestesiou meus dentes da frente e jogou para dentro da minha boca aquele pedaço liso e suculento que ardeu minha língua e lacrimejou meus olhos. Não consegui mastigar, tive que cuspir discretamente, assumindo minha derrota. Passei dois dias com um gosto horrível na boca e decidi que queria ser uma velhinha como a minha avó: frágil, gordinha, encolhidinha, comendo chocolate e não cebola crua.

Até hoje não consigo comer cebola, mas nunca vou deixar de cortá-las.

Tetris

Com a morte da minha avó no final de 2009, uma geração inteira da minha família desapareceu. A camada dos velhinhos, dos avós que nasceram nas primeiras décadas de 1900, que testemunharam as duas guerras mundiais (e muitas outras) e viveram boa parte da vida sem carro, televisão e fast food (e acreditem, eram felizes!). Cheios de histórias para contar, me arrependo por não ter prestado mais atenção a elas. Viagens longas de trem ou navio, casamentos arranjados, amores impossíveis, doenças sem cura, mulheres resignadas, conquistas e perdas, vícios escondidos, crenças exageradas.  As que foram contadas – e que ainda são lembradas – vêm sendo repassadas para as gerações seguintes, mas como num telefone sem fio, algumas informações e detalhes são deturpados ou perdidos. Agora é tarde, não sobrou ninguém para corrigir ou tirar as dúvidas. Tenho vontade de revirar baús, procurar cartas antigas, conhecer lugares onde eles viveram e que não existem mais. Queria recuperar o que ficou perdido para sempre.

Parece até um jogo de Tetris, onde as linhas que vão sendo preenchidas somem. A linha dos meus avós sumiu. Assim, todas as linhas seguintes desceram, e pela ordem natural das coisas, a de baixo é a próxima a ser exterminada. Agora a geração dos meus pais está na linha da berlinda, eles tomaram o lugar e o papel dos mais velhos da família. A geração das crianças foi promovida a adultos e os pais viraram avós. Meus filhos e sobrinhos já ocupam a camada que era minha, da minha irmã e de meus primos.  Agora eles são as crianças, o centro das atenções, a promessa do futuro da família. Eu estou na linha que era dos meus pais, a camada principal, que manda, trabalha, paga, organiza e que cuida da camada de cima e de baixo. Meus pais e tios que até pouco tempo protagonizavam a família, agora descansam e se recolhem à função de avós, mimando os netos com elogios corujas, bolos e histórias. Os elogios são outros – os que meus avós faziam eram em árabe – as histórias são diferentes e até o bolo não tem o mesmo sabor. É o sabor de uma geração que ainda é nova, mas tem que aprender a ser velha. Sua casa agora é onde todos se reúnem, onde as datas mais importantes são comemoradas, onde a família se sente completa.

Ainda estamos meio desconfortáveis na nova camada recém-alcançada, como uma promoção fora de hora. Mas logo vamos nos acostumar. No Tetris, o tempo passa mais depressa conforme as fileiras são eliminadas, mas no caso da realidade isso é apenas uma sensação. Temos ainda muito tempo pela frente para aprender a exercer da melhor forma nossas novas funções e deixar o jogo na hora certa, quando a missão estiver cumprida. Como a geração dos meus avós.

Inferno

Procurava o interruptor ou janelas que pudessem ser abertas. Tateando as paredes úmidas e emboloradas, esperava encontrar alguma fresta.  O ar estava acabando e nenhum sopro de oxigênio novo podia ser percebido. O frio era extremo, mas afinal, não devia ser quente, pelando? Fora o clima, todo o resto era como ele imaginava. Escuro, barulho, fedor. Todo o seu corpo formigava, cada parte era pinicada como vodu. Todas as dores daquele lugar eram suportáveis para que torturassem o maior tempo possível. Nada tirava os sentidos, nada anestesiava, nada terminava. A dor, a escuridão e o gelo permaneciam. Até quando? Se for a eternidade, para ele já tinha passado nas poucas horas que estava ali.

Sentou-se no chão irregular e áspero e a nova perspectiva fez o lugar parecer ainda mais terrível. Era assim que sua mãe o chamava, O Terrível. Por um instante, considerou que ela poderia também estar naquele pardieiro, condenada pela sua complacência com as maldades do único filho. Com este barulho todo, a pobre nem conseguiria cantar para passar a sua eternidade. Cantar era o que ela mais gostava de fazer. Mas neste lugar não cabem rimas e a única melodia que se ouve são gritos e choros desesperados.

O som forte não o incomodava como as agulhadas pelo corpo. Agora era a cabeça que formigava, mas nem assim a consciência da dor perpétua diminuía. Estava ali inteiro, sabia o motivo da punição e apesar do breu, era claro o seu destino. Merecia? Provavelmente. Não conhecia as leis de Lúcifer, mas deviam ser parecidas com as dos homens. O arrependimento era a libertação? Se sim, sua eternidade ia durar ainda muito tempo, talvez toda a eternidade.

Nota

Solidão

Se não soubesse cozinhar, não comeria

Se não soubesse cantar, nada ouviria

Se não soubesse rezar, amanhã não acordaria

Se não soubesse falar, que diferença faria?

Se não pudesse assobiar, nem o cão viria

Se não pudesse andar, nada o levaria

Se não pudesse pagar, mulher não conheceria

Se não pudesse sentir, a dor o arrebataria?

Se soubesse amar, a quem o amor daria?

Pediculose

Não foi tão ruim assim.  Meu avô teve que arrancar todos os dentes da boca aos dezoito anos para se curar de um problema de nervos.  Tempos ignorantes.  Não tão diferentes de hoje, que faz uma criança raspar a cabeça por causa de piolho. Parasita sanguinário que resolveu brotar e procriar na cabeleira do meu filho. Não teve Escabin, Kwell ou Piolin que desse conta do extermínio da família Pediculus Humanus Capitis, uma atitude mais drástica foi necessária.  Destruir o habitat, acabar com aquela moradia que a cada cinco minutos era assaltada por dedos ansiosos e frenéticos  em busca de alívio para a coceira inconveniente.

A máquina zero descobriu um couro cabeludo ferido por picadas e unhadas.  Mas acabou definitivamente com o incômodo que já durava mais de duas semanas.  Quinze dias de hospedagem e alimentação farta para um enxame de minúsculas baratas transparentes que escurecem quando empanturradas de sangue.  Malditos piolhos.

Ao menos a careca raspada não foi em vão como a retirada dos dentes do meu avô, que só melhorou dos nervos com quase oitenta anos quando finalmente concordou em se tratar com Prozac.  Não sem antes relutar.  Se tivesse mais dentes preferiria tirá-los a tomar aquela droga da moda.  Morreu de dentadura e com os nervos cansados.

Já meu filho, está cheio de cabelos novamente, pronto para a próxima batalha da vida.  É, não foi tão ruim assim.

Previous Older Entries

%d bloggers like this: