Por que a lousa do quintal da minha vó?

Meus avós paternos moravam em Pindamonhangaba.  Em uma casinha simples, no centro da cidade, número 280, pintada toda de verde, com uma varanda na frente, um quintal atrás e um corredor comprido que ligava os dois extremos da casa.  As janelas dos quartos davam para este corredor estreito e cheio de vasos com espadas-de-São-Jorge e babosa espalhados no chão de cimento áspero.

Eu passava todas as minhas férias escolares lá, na casa da minha vó.  E era no quintal da minha vó que eu jogava queimada, andava de bicicleta e patins, brincava de amarelinha, tomava banho de esguicho e escrevia.  Sim, desde quando aprendi a ler e escrever, me lembro que pendurava a minha lousa – que era bem pequena, devia ter uns 50×50 cm – em uma das paredes verdes do quintal, e passava tardes inteiras escrevendo e apagando, escrevendo e apagando, escrevendo e apagando.

Foi assim que começou a minha “mania” de escrever.  Depois da lousa do quintal da minha vó, foram os cadernos, as agendas, mais tarde os moleskines, e agora este blog.  Ainda tenho alguns papéis guardados com textos antigos, mas tudo o que foi escrito e apagado naquela lousa ficou no passado.  Eram ideias, pensamentos e histórias de uma criança que estava começando a descobrir as palavras e a vida.  Queria poder voltar um minuto no tempo para ler pelo menos um pouco do que eu tanto escrevia.  Queria lembrar o que se passava na minha cabeça naquele tempo, mas não consigo.  Só me lembro da lousa, do quintal, do giz e da vontade enorme que tinha de escrever, escrever e escrever.

Este blog é uma homenagem à minha avó Luiza e meu avô Alcides, que me apresentavam à qualquer pessoa como “a minha neta escritora”.  Eles não moram mais na casinha verde.  Moram no meu coração, junto com todas as lembranças maravilhosas da minha infância.

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