Exagero em excesso desmedido

Ela era compulsiva.  Tudo o que ela fazia era exagerado.  Comia até explodir, bebia até cair, comprava muito mais que permitia sua conta bancária, falava sempre mais do que devia, virava noites trabalhando, mas quando cismava que precisava de descanso, passava dias e noites sem fazer absolutamente nada.  Era tudo sem limites.  Amava ao extremo, odiava com uma raiva que não cabia dentro de si.  Chorava por horas a fio ou ria até perder o ar.  Nada na vida dela era ameno.  Tudo o que ela vivia era intenso, quer dizer, ela fazia com que tudo ganhasse uma dimensão sobrenatural.

O problema é que ninguém conseguia conviver com ela, com seus ímpetos incontroláveis.  E um dia, ela se viu profundamente só e isso a deixou extremamente triste.  Era uma tristeza sem fim, que tomava conta da sua vida e não deixava espaço para mais nenhuma de suas compulsões.  Depois de chegar ao fundo do poço, resolveu assumir que estava doente e foi se tratar.  Como de costume, se dedicou a isso com o mesmo afinco que se entregou à sua tristeza, com a mesma voracidade com que devorava quilos de chocolate e a mesma energia que empregava quando gastava todo o seu salário em duas horinhas de shopping.  O empenho foi tanto, que depois de 2 meses de tratamento, se julgou curada.  Sim, ela própria se deu alta e informou ao médico que deixaria de tomar os medicamentos e de freqüentar a terapia.  O médico tentou explicar que este tipo de tratamento geralmente levava em média um ano e que a atitude dela durante o tratamento intensivíssimo era mais um indício de que ela ainda precisava de ajuda, mas não conseguiu.  Só conseguiu que ela ouvisse seu último e derradeiro aviso: – Ei menina, não vai fazer nenhum estrago hein!  Ela olhou para trás e toda faceira mandou um beijinho para o doutor. 

Estava convencida de que já estava completamente curada daquela tristeza medonha e que agora se sentia a pessoa mais feliz do mundo – apesar de não ter havido absolutamente nenhuma mudança na sua vida.  E lá foi ela pelo mundo com uma alegria incontrolável e dilacerante, se esquecendo de que sua doença era o exagero e não a tristeza.  E o estrago estava feito.

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1 Comentário (+add yours?)

  1. Ge
    Fev 14, 2011 @ 10:53:35

    De repente senti o mundo me apertando e fui encolhendo… Fiquei tão pequena!

    Responder

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