O primeiro sonho a gente nunca esquece

Há exatamente 20 anos realizei o primeiro sonho da minha vida.  No dia 10 de janeiro de 1992 pisei pela primeira vez na Disney.

Desde muito pequena pedia para o meu pai me levar para a Disney, mas na adolescência, me dei conta de que o lugar mais distante que tinha visitado com meus pais até então, era o Rio de Janeiro.  Todas as férias, a mesma briga.  Minha mãe querendo conhecer algum lugar diferente, eu e minha irmã pedindo para passarmos alguns dias em alguma praia que não fosse Guarujá ou Ubatuba, que eram os destinos certos de todas as férias, alternados com a casa da minha avó, em Pindamonhangaba.

Meu sonho era conhecer a Disney com a minha família, queria muito ter meus pais e minha irmã ao meu lado neste momento, mas sabia que isso tornava meu sonho ainda mais distante.  Definitivamente isso não ia acontecer.  O jeito foi começar a pedir a viagem só para mim, que nesta altura do campeonato já estava bem grandinha e poderia muito bem ir sozinha em uma excursão.  Infernizei a vida do meu pai, não perdia uma oportunidade de pedir, chorar e mostrar o quanto queria fazer aquela viagem.  Mas não adiantava, ele não cedia.  Meu pai é a pessoa mais teimosa que eu conheço. Mas eu sou insuportavelmente insistente e não desistiria até conseguir.

Estive quase perto de conhecer a Disney no meu aniversário de 15 anos.  Meus pais deixaram escapar que o meu presente seria a sonhada viagem, mas a conjuntura política-econômica do Brasil nesta época não estava querendo colaborar muito com os meus planos.  Neste ano de 1989 a inflação estourou, o Collor foi eleito Presidente da República e no início de 90, a simpática e carismática Zélia Cardoso de Mello congelou as cadernetas de poupança de todos os brasileiros.  Ninguém mais podia usar o dinheiro economizado por uma vida inteira de trabalho, e é claro que o meu presente foi pro beleléu.  Este acontecimento afetou tão profundamente a vida de tantas pessoas – que estavam prestes a comprar uma casa, que precisavam do dinheiro para despesas médicas e mil outras situações urgentes e desesperadoras – que adiar mais uma vez a minha viagem não foi o fim do mundo.  Pelo menos a possibilidade foi cogitada, o que já era um grande avanço.  Em 1991 a situação do país deu uma melhorada e eu retomei com todas as forças minha campanha para convencer meu pai da viagem.

No final do ano – acho que era outubro/91 – fomos até a Stella Barros, famosa pela sua especialidade em levar crianças desacompanhadas em TOTAL segurança para a Disney, “só” para pegar algumas informações sobre as excursões.  Estávamos eu, minha mãe, meu pai e minha irmã, e ficamos durante muito tempo ouvindo a moça explicar todos os diferenciais da viagem feita com a tia Augusta (nesta época a tia Augusta trabalhava para a Stella Barros, mais tarde elas se separaram e Tia Augusta abriu sua própria agência), mostrar todos os folhetos dos parques e opções de roteiros, datas e preços.  Meu pai balançava a cabeça, concordando com o que a moça falava – principalmente quando ela detalhava todas as precauções que eram tomadas para garantir a segurança dos menores -, minha mãe parecia bem apreensiva, minha irmã impaciente e eu quase explodindo de tanta ansiedade.  Estava prestes a completar 17 anos, mas naquele momento parecia uma menina de 8.  Lembro que não conseguia prestar atenção em nada do que ela falava – até porque já sabia tudo aquilo de cor – só ficava tentando decifrar a expressão do meu pai, na esperança de algum sinal que indicasse uma chance de ele concordar e fechar a viagem.  Mas já tínhamos ido algumas vezes à agências de viagens para pegar informações, e o final da conversa era sempre o mesmo: – Muito obrigado, vamos pensar um pouco e voltamos a entrar em contato.  Toda vez um belo balde de água fria na minha esperança.

Mas desta vez foi diferente.  Me lembro como se fosse hoje.  A moça acabou de falar, e por um momento – que para mim pareceu uma eternidade – ficamos todos em silêncio.  O meu silêncio era o mais profundo, até a minha respiração estava suspensa na expectativa da sentença final.  Meu pai suspirou, virou todo o corpo em minha direção, olhou bem nos meus olhos e disse: – É isso que você quer MESMO?  Minha respiração quis voltar mas eu respondi que sim antes mesmo de inspirar o ar que estava me faltando.

Ele voltou-se para a moça e disse: – Vamos então fechar a viagem para as duas (eu e minha irmã, que ganhou a viagem no vácuo, de mão beijada), na saída do dia 9 de janeiro.

Assim meu sonho foi realizado.  E foi ainda melhor do que eu imaginava.  Minha prima Renata foi com a gente e pela primeira vez na vida andei de avião.  Chegamos no próprio dia 9 à noite em Orlando e no dia seguinte já estávamos cedinho no Magic Kingdom.  Não tenho como explicar a sensação que tive quando entrei no parque.  Me lembro de cada momento, do cheiro, do vento gelado do inverno de -2ºC (que nem me incomodava, passei o dia inteiro de camiseta) e da minha felicidade naquele lugar mágico.  Me diverti muito, me surpreendi, me encantei, me emocionei, chorei de alegria.

Quase 10 anos depois, em agosto de 2000, voltei à Disney com meu marido, que na época ainda era meu namorado.  Foi o máximo, mas foi diferente, não tinha o gosto da primeira vez.

Hoje tenho mais um sonho: levar meus filhos para a Disney.  Quero que seja no momento certo, que seja especial, esperado, desejado, planejado.  Quero  poder dar este presente para eles.  Quero ver nos olhinhos deles a emoção de passar por esta experiência.  Vai ser diferente da minha, cada um vai sentir e aproveitar da sua maneira particular, mas com certeza será um momento inesquecível para todos nós.  Inesquecível como a minha viagem de 92,  inesquecível como todo sonho que se realiza.

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Quero ser protagonista de propaganda de margarina

Pode ser também de Sazón.  Ou de Tang.  Ou até mesmo daqueles comerciais de produtos de limpeza, XR-14 ou Pato Purific.  Ou de todos eles, porque todos têm uma coisa em comum: mostram momentos que eu não consigo experimentar no meu dia a dia, que passam bem longe da minha rotina diária.  E olha que eu já tenho o cenário e elenco perfeitos: marido, casa, 2 filhos, mesa de jantar, fogão, margarina na geladeira, mas nunca protagonizei uma cena como destas propagandas.  Família reunida em volta da mesa posta para o café da manhã, marido sorridente de gravata pedindo gentilmente para passar a margarina e os filhos já arrumadinhos e lindinhos, prontos para ir para a escola.  Todos alegres, tranquilos, sem nenhuma pressa para o longo dia que os espera.  Aliás, o dia está sempre ensolarado sem uma nuvem no céu, alguém já viu propaganda de margarina num dia feio e chuvoso?

Aí vem o almoço, o dia continua lindo e a protagonista está no fogão, ao lado da empregada também sorridente de avental impecável, mexendo uma panela de feijão fresquinho, exalando um cheiro que somos capazes de sentir do outro lado da televisão.  Todos voltam para casa para almoçar, sentam juntos à mesa, experimentam o melhor feijão da vida deles e enchem a mulher de elogios e beijos.

O Tang vem à tarde, quando todos os amiguinhos do filho estão brincando alegremente no quintal e a mãe – a mesma protagonista do café da manhã e do almoço repletos de felicidade – chama toda a molecada para tomar um copo de suco que ela acabou de fazer em 2 minutos numa jarra linda de cristal.  Todos obedecem na hora (ha ha ha!), vêm correndo e bebem aquele suco aguado como se fosse uma deliciosa coca-cola gelada.  Chega o jantar, mas a protagonista está um pouco atarefada com a limpeza da casa.  É um episódio tenso do seu dia, mas neste momento a empregada lhe apresenta um XR-14, que num passe de mágica, tira todas as manchas, gorduras e sujeiras que o delicioso e elogiado feijão deixou no fogão.  Pronto, ela já está linda novamente para receber os filhos e o marido – ainda sorridentes -, servir uma suculenta lasanha pronta da Sadia que esquentou em 10 minutos e receber mais elogios e beijinhos para fechar a sua árdua maratona diária.  Ufa!

Se eu quero essa vida?  Não, porque além de ser chata, ela não existe, mas queria sim viver alguns momentos como estes.  Por que não?  Como sonhar não custa nada, poderia também incluir umas cenas de propaganda de desodorante, em que a fofa da protagonista vai andando pela rua soltando pétalas de rosas pelas axilas.  Podem entrar também umas cenas de Molico, em que ela toma seu leite se espreguiçando e quase levitando diante de um mar azul maravilhoso.  Para completar o dia, pitadas dos momentos simples e felizes da campanha do Pão de Açúcar, como comer um pão francês quentinho – tem que ter a fumacinha – ou queijo com goiabada, arroz com feijão, brigadeiro na panela.  Brincar na areia da praia, dançar na chuva sem preocupação, falar bobagem, fazer nada, fazer de tudo, andar descalço, abraçar quem se ama.  Delícia de vida.

Mas quer saber, o que eu quero mesmo é não ter roteiros definidos para a minha vida, é apenas ter alegria, sabedoria e saúde para enfrentar e receber de braços abertos os momentos que a vida me apresentar.  Que sejam previstos ou inesperados, bons ou ruins, simples ou extraordinários, mas que sejam os meus momentos, aproveitados e vividos da minha forma, do meu jeito.

Vou continuar chorando em propaganda de margarina – esse é o meu jeito -, mas o que eu quero mesmo é ser protagonista da minha vida!

Para relembrar (e chorar…):

Doriana – Os elogios são pra você – 1986

Clássica homenagem do Tang ao Dia das Mães

Sazon, o tempero do amor

O que faz você feliz?

Este comercial da Sadia é um dos mais emocionantes que já vi, lembro que na faculdade tive uma aula de Mídia com este filme e jamais me esqueci dele.  E ainda virei fã do Placido Domingo, que canta a música Perhaps Love lindamente.

Sadia 50 anos

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