Solidão

Se não soubesse cozinhar, não comeria

Se não soubesse cantar, nada ouviria

Se não soubesse rezar, amanhã não acordaria

Se não soubesse falar, que diferença faria?

Se não pudesse assobiar, nem o cão viria

Se não pudesse andar, nada o levaria

Se não pudesse pagar, mulher não conheceria

Se não pudesse sentir, a dor o arrebataria?

Se soubesse amar, a quem o amor daria?

Pediculose

Não foi tão ruim assim.  Meu avô teve que arrancar todos os dentes da boca aos dezoito anos para se curar de um problema de nervos.  Tempos ignorantes.  Não tão diferentes de hoje, que faz uma criança raspar a cabeça por causa de piolho. Parasita sanguinário que resolveu brotar e procriar na cabeleira do meu filho. Não teve Escabin, Kwell ou Piolin que desse conta do extermínio da família Pediculus Humanus Capitis, uma atitude mais drástica foi necessária.  Destruir o habitat, acabar com aquela moradia que a cada cinco minutos era assaltada por dedos ansiosos e frenéticos  em busca de alívio para a coceira inconveniente.

A máquina zero descobriu um couro cabeludo ferido por picadas e unhadas.  Mas acabou definitivamente com o incômodo que já durava mais de duas semanas.  Quinze dias de hospedagem e alimentação farta para um enxame de minúsculas baratas transparentes que escurecem quando empanturradas de sangue.  Malditos piolhos.

Ao menos a careca raspada não foi em vão como a retirada dos dentes do meu avô, que só melhorou dos nervos com quase oitenta anos quando finalmente concordou em se tratar com Prozac.  Não sem antes relutar.  Se tivesse mais dentes preferiria tirá-los a tomar aquela droga da moda.  Morreu de dentadura e com os nervos cansados.

Já meu filho, está cheio de cabelos novamente, pronto para a próxima batalha da vida.  É, não foi tão ruim assim.

A piscina, o balão vermelho e o jumento

Ele me chamou de hiperbólica, doutor.  Eu sei o que é hiperbólica, mas achei mesmo um exagero da parte dele.  Não, não estou nada bem, doutor.

Quando me sentia triste assim, costumava mergulhar na piscina durante a noite lá na fazenda Santa Vereda da minha infância.  Quando a madrugada silenciava a noite de vez, ia sorrateira até a piscina e entrava na água gelada tentando me manter no fundo para ouvir o som das minhas tripas.  Depois que as bolhas formadas pelo mergulho subiam à superfície e sumiam, ouvia o líquido interno do meu corpo borbulhar.  Conseguia ouvir a pulsação e até o eriçar dos pelos que se arrepiavam com a temperatura da água.  O senhor sabia que o nosso corpo faz barulho por dentro, doutor?  Claro, esqueci que o senhor é doutor, será que pode então me explicar este caos que os órgãos criam dentro da gente e que só dá para escutar debaixo d’água?  Depois o senhor me explica, agora não quero saber.

Foi lá em Santa Vereda que ganhei um balão vermelho cheio de gás.  Já contei isso, doutor?  Mas me descuidei e ele escapou.  Subiu tão alto que virou um pontinho vermelho no céu da fazenda.  Não tirei os olhos dele até que desaparecesse de vez. Neste dia, ou melhor, nesta noite, fui para a piscina.  Pensava que se fossem mil balões poderiam ter me levado e saberia onde meu vermelho foi parar.

Vermelho é minha cor preferida, sabia disso, doutor?  Até de sangue gosto por causa da cor.  Não me importava vestir as botas com meus pés sangrando. Sangrava também o bucho do jumento que me carregava pela fazenda, ferido pelas esporas da minha bota.  Juvenal era o nome dele, do jumento.  Era jumento forte, de pai e mãe, baixinho, cabeludo, orelhudo, sem mistura com égua que faz nascer burros e mulas.  Já viu jumento fugir, doutor?  Esse fugiu, ninguém mais nunca viu.  Passei noites seguidas na piscina, era inverno e além dos sons habituais, conseguia ouvir também meu estômago se encolher e meu intestino se contorcer de frio.

Antônio fugiu que nem o jumento, sumiu como meu balão vermelho.  Não sem antes usar suas esporas e me chamar de hiperbólica.  Podia ter me chamado de louca, não ia me importar.  Queria mesmo é saber se minhas vísceras continuam fazendo os mesmos barulhos depois de Antônio.  Não vai falar nada, doutor?  Falo eu então.  Se Santa Vereda ainda existisse, mergulharia de novo naquela piscina, mas desta vez esperaria no fundo até as entranhas pararem de gritar.  Quando as bolhas da água da piscina e do meu corpo acabassem, tudo estaria resolvido.  Tudo seria silêncio como do céu, se tivesse voado com meu balão vermelho.  Ou das matas fechadas prá lá dos hectares da fazenda, se tivesse fugido no lombo de Juvenal.  Não usaria mais esporas. Não sangraríamos mais, nem eu nem Juvenal. Não haveria mais Antônio, como já não há.

Sem fazenda, sem piscina, sem balão, sem Juvenal.  Sentirei falta de Antônio como sinto deles?  Sentirá falta de mim, doutor?

Formigamento

O fato ainda não estava consumado, mas era iminente. O inevitável lhe dava certa tranquilidade, mesmo sendo ele próprio o agente da desgraça que estava por vir. Pensou que toda cena que se preze tem que ter um antagonista e que este era um papel que lhe caía bem. Sentia-se confortável como algoz, apesar de encontrar-se muito mal posicionado, agachado diante da parede que sustentava a janela de onde o tiro fatal seria disparado. Uma morte encomendada, mas merecida, justa. Apesar de ser o seu ofício, o seu ganha-pão, interessava-se pela motivação do mandante, queria sempre saber o que a vítima tinha aprontado para merecer tal fim. Tinha a sua ética. Mulher não matava. Criança, nem pensar, mas ninguém encomendava morte de criança. Velhos ele executava sem dó, já tinham vivido o suficiente. Gostava mesmo era dos casos de vingança. Tinha vontade até de dar um desconto na negociação. “Olho por olho dente por dente”, repetia como um mantra, instantes antes da execução do trabalho. Considerava-se um justiceiro, isso o absolvia e espantava para bem longe os demônios da culpa.

Mas por que o condenado demorava tanto? A foto não era muito nítida, precisava estar atento aos passantes da rua escolhida para ser o cenário da tragédia. Ele passaria por ali pontualmente às sete e meia. Desde as seis e meia estava naquela posição que agora não parecia ser a mais adequada. Não podia correr o risco de aparecer na janela. Observava por um buraco na parede, que lhe dava a visão da esquina e de um pedaço pequeno da rua. A janela serviria apenas para dar o tiro quando seu alvo aparecesse.

A espera o deixava raivoso, o que não era de todo mal para quem está prestes a matar alguém. Mas o formigamento repentino das pernas atrapalhou sua concentração. Eram sete e trinta e dois e não podia desviar os olhos daqueles paralelepípedos imundos nem por um segundo. Tentou chacoalhar discretamente as pernas para que o sangue voltasse a circular, mas o movimento fez com que o incômodo virasse uma dor lancinante. Amaldiçoou sua ideia de ficar de cócoras para que tivesse mais agilidade em conferir de quando em quando o começo da rua. Se avistasse o gorducho com mais antecedência poderia se preparar melhor para o momento do disparo. Empunhava a arma já engatilhada, mas sua vontade era de atirar nas próprias pernas que já não obedeciam aos seus comandos.

Eram sete e trinta e quatro, dois minutos que tiveram a mesma duração das 2 horas que costumava passar com seus amigos jogando gamão e tomando cerveja aos domingos. A relatividade do tempo o assombrou. Sentiu no lábio superior uma gota grossa de suor que rolou rapidamente para dentro de sua boca, salgando a dor das agulhadas que já pinicavam seus quadris.

Inoportuno, o corpo roliço da foto entrou em carne e osso no seu campo de visão e se encaixou perfeitamente em seu alvo. Ainda teve tempo de pensar que, se sua presa demorasse um pouco mais, o formigamento poderia ter atingido suas mãos e prejudicado a pressão do dedo indicador no gatilho. Mas elas continuavam assassinas e em forma. Houve um estampido e um som abafado de queda, que podia ser bem de um saco de batatas. Mas era do corpo gordo que foi rodeado por um formigueiro de curiosos formado em poucos minutos. Suas pernas recobraram a circulação, os demônios nem se atreveram a se aproximar e o tempo voltou ao seu ritmo normal.

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