Formigamento

O fato ainda não estava consumado, mas era iminente. O inevitável lhe dava certa tranquilidade, mesmo sendo ele próprio o agente da desgraça que estava por vir. Pensou que toda cena que se preze tem que ter um antagonista e que este era um papel que lhe caía bem. Sentia-se confortável como algoz, apesar de encontrar-se muito mal posicionado, agachado diante da parede que sustentava a janela de onde o tiro fatal seria disparado. Uma morte encomendada, mas merecida, justa. Apesar de ser o seu ofício, o seu ganha-pão, interessava-se pela motivação do mandante, queria sempre saber o que a vítima tinha aprontado para merecer tal fim. Tinha a sua ética. Mulher não matava. Criança, nem pensar, mas ninguém encomendava morte de criança. Velhos ele executava sem dó, já tinham vivido o suficiente. Gostava mesmo era dos casos de vingança. Tinha vontade até de dar um desconto na negociação. “Olho por olho dente por dente”, repetia como um mantra, instantes antes da execução do trabalho. Considerava-se um justiceiro, isso o absolvia e espantava para bem longe os demônios da culpa.

Mas por que o condenado demorava tanto? A foto não era muito nítida, precisava estar atento aos passantes da rua escolhida para ser o cenário da tragédia. Ele passaria por ali pontualmente às sete e meia. Desde as seis e meia estava naquela posição que agora não parecia ser a mais adequada. Não podia correr o risco de aparecer na janela. Observava por um buraco na parede, que lhe dava a visão da esquina e de um pedaço pequeno da rua. A janela serviria apenas para dar o tiro quando seu alvo aparecesse.

A espera o deixava raivoso, o que não era de todo mal para quem está prestes a matar alguém. Mas o formigamento repentino das pernas atrapalhou sua concentração. Eram sete e trinta e dois e não podia desviar os olhos daqueles paralelepípedos imundos nem por um segundo. Tentou chacoalhar discretamente as pernas para que o sangue voltasse a circular, mas o movimento fez com que o incômodo virasse uma dor lancinante. Amaldiçoou sua ideia de ficar de cócoras para que tivesse mais agilidade em conferir de quando em quando o começo da rua. Se avistasse o gorducho com mais antecedência poderia se preparar melhor para o momento do disparo. Empunhava a arma já engatilhada, mas sua vontade era de atirar nas próprias pernas que já não obedeciam aos seus comandos.

Eram sete e trinta e quatro, dois minutos que tiveram a mesma duração das 2 horas que costumava passar com seus amigos jogando gamão e tomando cerveja aos domingos. A relatividade do tempo o assombrou. Sentiu no lábio superior uma gota grossa de suor que rolou rapidamente para dentro de sua boca, salgando a dor das agulhadas que já pinicavam seus quadris.

Inoportuno, o corpo roliço da foto entrou em carne e osso no seu campo de visão e se encaixou perfeitamente em seu alvo. Ainda teve tempo de pensar que, se sua presa demorasse um pouco mais, o formigamento poderia ter atingido suas mãos e prejudicado a pressão do dedo indicador no gatilho. Mas elas continuavam assassinas e em forma. Houve um estampido e um som abafado de queda, que podia ser bem de um saco de batatas. Mas era do corpo gordo que foi rodeado por um formigueiro de curiosos formado em poucos minutos. Suas pernas recobraram a circulação, os demônios nem se atreveram a se aproximar e o tempo voltou ao seu ritmo normal.

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1 Comentário (+add yours?)


  1. Abr 03, 2012 @ 08:49:54

    Será possível??? Já consegui absorver a sua genialidade. Mas essa versatilidade agora me deixa inquieta. Será mesmo possível????!
    Te adoro, Lê!!!!

    Responder

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