A piscina, o balão vermelho e o jumento

Ele me chamou de hiperbólica, doutor.  Eu sei o que é hiperbólica, mas achei mesmo um exagero da parte dele.  Não, não estou nada bem, doutor.

Quando me sentia triste assim, costumava mergulhar na piscina durante a noite lá na fazenda Santa Vereda da minha infância.  Quando a madrugada silenciava a noite de vez, ia sorrateira até a piscina e entrava na água gelada tentando me manter no fundo para ouvir o som das minhas tripas.  Depois que as bolhas formadas pelo mergulho subiam à superfície e sumiam, ouvia o líquido interno do meu corpo borbulhar.  Conseguia ouvir a pulsação e até o eriçar dos pelos que se arrepiavam com a temperatura da água.  O senhor sabia que o nosso corpo faz barulho por dentro, doutor?  Claro, esqueci que o senhor é doutor, será que pode então me explicar este caos que os órgãos criam dentro da gente e que só dá para escutar debaixo d’água?  Depois o senhor me explica, agora não quero saber.

Foi lá em Santa Vereda que ganhei um balão vermelho cheio de gás.  Já contei isso, doutor?  Mas me descuidei e ele escapou.  Subiu tão alto que virou um pontinho vermelho no céu da fazenda.  Não tirei os olhos dele até que desaparecesse de vez. Neste dia, ou melhor, nesta noite, fui para a piscina.  Pensava que se fossem mil balões poderiam ter me levado e saberia onde meu vermelho foi parar.

Vermelho é minha cor preferida, sabia disso, doutor?  Até de sangue gosto por causa da cor.  Não me importava vestir as botas com meus pés sangrando. Sangrava também o bucho do jumento que me carregava pela fazenda, ferido pelas esporas da minha bota.  Juvenal era o nome dele, do jumento.  Era jumento forte, de pai e mãe, baixinho, cabeludo, orelhudo, sem mistura com égua que faz nascer burros e mulas.  Já viu jumento fugir, doutor?  Esse fugiu, ninguém mais nunca viu.  Passei noites seguidas na piscina, era inverno e além dos sons habituais, conseguia ouvir também meu estômago se encolher e meu intestino se contorcer de frio.

Antônio fugiu que nem o jumento, sumiu como meu balão vermelho.  Não sem antes usar suas esporas e me chamar de hiperbólica.  Podia ter me chamado de louca, não ia me importar.  Queria mesmo é saber se minhas vísceras continuam fazendo os mesmos barulhos depois de Antônio.  Não vai falar nada, doutor?  Falo eu então.  Se Santa Vereda ainda existisse, mergulharia de novo naquela piscina, mas desta vez esperaria no fundo até as entranhas pararem de gritar.  Quando as bolhas da água da piscina e do meu corpo acabassem, tudo estaria resolvido.  Tudo seria silêncio como do céu, se tivesse voado com meu balão vermelho.  Ou das matas fechadas prá lá dos hectares da fazenda, se tivesse fugido no lombo de Juvenal.  Não usaria mais esporas. Não sangraríamos mais, nem eu nem Juvenal. Não haveria mais Antônio, como já não há.

Sem fazenda, sem piscina, sem balão, sem Juvenal.  Sentirei falta de Antônio como sinto deles?  Sentirá falta de mim, doutor?

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: