Banho de porquês

Meu filho de 2 anos e meio está na fase dos porquês.  Além disso, é uma criança muito teimosa e desafiadora, que não desiste fácil quando cisma com alguma coisa ou assunto. 

O momento é a hora do banho.  Ele já toma banho no chuveiro e tem absoluta certeza de que sabe perfeitamente se ensaboar, enxaguar e enxugar sozinho.  Tenho que inventar mil artifícios e histórias para convencê-lo a me deixar ajudar em alguns momentos.  O resultado são banhos demorados e cheios de oportunidades de interagir e tentar ensiná-lo a realmente se lavar sozinho.

Começou assim: – Mamãe, puquê o sabonete arde o olho? (ele tinha esfregado os olhos com a mão ensaboada)

– Porque ele serve para limpar a nossa pele e não os olhos. (falei meio sem certeza de que essa era a resposta certa)

– Puquê ele seve pa limpá?

– Hum…porque ele é feito especialmente para tirar a sujeira do nosso corpo. (estava com menos certeza ainda do que na primeira resposta) 

– Mas…puquê?

– Por que o que, meu amor?

– Puquê ele arde?

Ai caramba, o negócio estava ficando complicado.  Percebi que nunca tinha pensado neste assunto.  Minhas respostas não estavam satisfazendo a curiosidade dele.  Ou então eu não estava sendo didática o suficiente.  Ou ele estava me desafiando?  Enfim, pensei mais um pouco e respondi: – Porque o sabonete tem um perfuminho dentro, que faz esta espuminha que limpa o nosso corpo, mas que arde se entrar nos nossos olhos.

Vi que tinha me complicado ainda mais tentando usar uma linguagem infantilizada:

– Mas puquê faz epuminha, mamãe?

– É que a espuminha…(ai meu Deus, e agora?) a espuminha…é…é…ela aparece quando esfregamos o sabonete, e aí, ela é importante porque pega a sujeirinha da nossa pele e leva embora junto com a água.  Entendeu?

Olhei para ele quase que implorando por um sim.

– Tá bom, mamãe.

Ufa!  Ele se contentou com a resposta.  Ficou um tempinho ensaboando a barriga e olhando atentamente para a tal da espuminha mágica que leva a sujeira embora.  Eu estava orgulhosa com meu poder de convencimento – ou de enrolação – quando ele levantou a cabeça e disse:

– Mas mamãe?  Puquê a epuminha arde o olho?

NÃO!!!  Meu repertório de respostas esfarrapadas para assuntos nunca antes analisados estava esgotado!  Não aguentava mais falar sobre sabonete e espuminha!  Respirei fundo, olhei para ele bem séria e disse de forma muito convicta:

– É porque tem SODA CÁUSTICA, é por isso!

– Soda cáxica?

– É, Thiago, SODA CÁUSTICA, ok?  É ela que faz arder o olho.  (não tinha ideia se soda cáustica era realmente um componente do sabonete, fazia sentido na minha cabeça e falei como um último pedido de socorro).

Ele colocou o sabonete na saboneteira, pegou um brinquedinho no chão do box e não falou mais no assunto.  Passei o resto do banho com medo que ele resolvesse me perguntar sobre a “soda cáxica”.  Mas não perguntou.  Perguntou por que a aguinha continuava saindo depois que eu desligava o chuveiro, por que a toalha dele era azul e a do Pedro verde, por que ele não estava vendo nada no espelho (embaçado) e por que tinha que pôr a roupa pra gente passear (essa pergunta ele faz no final de todos os banhos).

Depois do episódio, fiquei tentando descobrir o que teria feito ele parar de perguntar sobre o bendito sabonete.  Será que ele percebeu a minha cara de aflição e impaciência?  Será que ficou com pena de mim ou apenas cansou do assunto?  Ou será que a soda cáustica foi tão poderosa que ele imaginou que aquele nome esquisito devia mesmo fazer arder os olhos?

Não sei.  Só sei que se ele perguntasse sobre sexo, estaria bem mais preparada! 🙂

Cheiro de filho

Tenho o costume (ok, pode chamar também de mania, vício ou até TOC ) de toda noite ir até o quarto dos meus filhos e cheirar a cabeça deles.  Não, não é em qualquer lugar da cabeça, é em uma parte específica em que descobri a maior concentração do verdadeiro cheiro da criança.  É sério, é no alto da testa, onde nasce o cabelo.  É onde a criança geralmente fica mais suadinha.  Há pouco tempo atrás, estava no pediatra dos meus filhos e coincidentemente ele explicou que as crianças têm muitas glândulas sudoríparas na cabeça e por isso, este é um lugar onde suam bastante.  Pronto, está cientificamente comprovado que este é realmente o cheirinho dos meus filhos!

Todos os dias, depois que eles dormem, vou até a cama de cada um, vejo se estão cobertos, se estão respirando (duvido que exista alguma mãe que nunca fez isso!), dou um beijinho de leve na bochecha, levanto a franja da testa deles e cheiro aquele lugarzinho especial.  Inspiro o aroma como se fosse o oxigênio que preciso para viver.  Encho os pulmões e invariavelmente meu coração fica disparado.  Tenho a sensação da felicidade plena e absoluta.  

Automaticamente começo a rezar e pedir a Deus que proteja meus anjinhos, para quem eu daria a minha vida um milhão de vezes, se fosse necessário.  Faço isso todas as noites com o Pedro e com o Thiago – olho, cubro, beijo, cheiro e rezo.  Cada um tem o seu cheiro.  O cheiro do Pedro é suave e o cheiro do Thiago é doce.  Reconheceria esses dois cheiros a quilômetros de distância.  São os cheiros que me dão energia e a certeza de que sou a mãe mais feliz do mundo. 

Vivo manifestando meu amor pelos meninos de forma bem explícita e muitas vezes exagerada.  Estou sempre beijando, abraçando, apertando, elogiando, dizendo que amo, enfim, não economizo carinho e esse é meu jeito de demonstrar o que sinto.  Mas o momento do “cheirinho” é diferente.  É suave, sagrado e intenso.  Eles não vêem, mas o amor que inunda o quarto é tão gigantesco, que com certeza nessa hora, seus sonhos são os mais lindos e doces que podem existir.

Meus cheirosos lindos!

O dia mais feliz da minha vida

Pedro, meu filho de 7 anos, vive me dizendo: “Mamãe, hoje é o dia mais feliz da minha vida!”, sem imaginar por quantas coisas importantes ele ainda vai passar durante a sua vida que está apenas começando.  Mas é lindo ver que para uma criança, qualquer coisa diferente que acontece faz do seu dia “o dia mais feliz da sua vida”.

Lembro de algumas vezes que o Pedro me disse esta frase com o sorriso mais lindo do mundo no rosto:

  • quando tirei um dia de folga do trabalho no meio da semana para ficar com ele – fomos ao cinema, brincamos no Hot Zone, comemos no McDonald´s, tomamos sorvete e passamos horas em lojas de brinquedo olhando bakugans, gormitis e aliens do Ben 10;
  • quando estávamos viajando de navio e paramos em Paraty, onde alugamos um barquinho de pescador só para a gente e fizemos um passeio lindo.  Na volta, o marinheiro, dono da embarcação, lhe deu de presente uma réplica de madeira do barco e ele achou o máximo;
  • quando estávamos na praia e passamos o dia inteirinho no mar e na piscina – achamos que nossos dedos não iriam “desenrugar” nunca mais!
  • quando comemoramos seu aniversário de 7 anos com seus melhores amigos no prédio da minha mãe e eles jogaram futebol na quadra durante 5 horas seguidas!

A sensação de ouvir esta frase da boca de um filho é indescritível para uma mãe, pois com a idade que o Pedro tem, tudo o que ele vive é proporcionado por nós, seus pais.  E saber que conseguimos deixá-lo tão feliz tantas vezes é simplesmente a melhor coisa do mundo!

Mas às vezes fico pensando: será que quando ele for para a Disney ou ganhar uma medalha na escola ou um campeonato de futebol importante, ele vai mudar o seu conceito de “melhor dia da sua vida” e esquecer os outros melhores dias vividos pelas pequenas alegrias do dia a dia?  Queria muito que quando ele experimentasse grandes emoções e eventos de proporções maiores, continuasse a dar valor e importância aos pequenos momentos da mesma forma.

“O dia mais feliz da vida” pode ser um dia qualquer ou um dia grandioso e memorável, aliás, podem ser vários dias, por que não?  Vamos ignorar que a frase é superlativa e restringe a felicidade à apenas um dia da vida.  A vida é muito longa e maravilhosa para termos que eleger apenas um dia como o melhor de todos!

Por isso, sou a favor das crianças: podemos ter o dia mais feliz da vida, todos os dias.

Ah, e o Pedro tem toda razão: em todos aqueles dias que ele me disse esta frase, era exatamente assim que eu também me sentia. Vivendo o dia mais feliz da minha vida.

Pedro e seu barco em Paraty

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