Apesar de…feliz!

Difícil achar um assunto mais batido e discutido do que a felicidade, mas para mim, existe um aspecto muito particular quando penso na minha própria felicidade.  Transito em uma zona de conforto em que sou sempre feliz apesar de alguma coisa.  Este “apesar de” me protege e me afasta da felicidade plena, que me parece muito perigosa, um fim de caminho, um  prêmio do qual somente raros seres humanos devem ser merecedores.  E eu é que não devo ser.

É claro que a minha formação católica e as inúmeras aulas de religião que tive na escola devem ter tido alguma influência neste meu medo e principalmente culpa de me sentir feliz em um mundo predominantemente infeliz.  Meu pensamento é simples: o que me deixa feliz de verdade, por mais piegas que seja, são os valores mais importantes da vida mesmo.  É ter minha família e amigos com saúde, proteção, alegria e bem perto de mim.  E é aí que entra o “apesar de”.  Ele é a minha disposição de abrir mão de coisas menos importantes – mas que podem me fazer muito feliz também – para garantir aquelas que considero mais importantes (como se fosse possível garantir alguma coisa nessa vida…).

Na minha lógica irracional, preciso do meu “apesar de” para atrapalhar um pouco a minha felicidade e aliviar minha consciência.  O mais importante então,  é que o “apesar de” seja fácil de se conviver, afinal, ele exerce este papel na minha felicidade, mas não deixa de ser aquele calo chato e mal resolvido que vira e mexe fica incomodando e atormentando a vida.  Geralmente é uma vontade ignorada, um problema que fingimos não existir, um incômodo menosprezado como aquela sujeira que se varre para debaixo do tapete…mas que sabemos que está lá.  Não acho que vou conseguir me livrar do “apesar de” (e nem sei se quero!), mas acho que ele precisa ser mudado de vez em quando.  Um problema pequeno não resolvido e ignorado por muito tempo pode tomar proporções gigantescas e acabar virando razão de infelicidade.

OK, mas cadê a coragem de levantar o tapete e tirar toda a sujeira acumulada lá debaixo?  Será melhor manter este “apesar de” quieto no canto e continuar feliz?  Ou será que chegou a hora de resolver esta questão e arrumar outro “apesar de” para manter a tal felicidade não plena da qual sou merecedora?  E quem disse que sou merecedora?

Bom, por enquanto Deus está cumprindo com o nosso trato.  E eu também estou acumulando alguns “apesar de” que precisam ser reavaliados, resolvidos ou substituídos.  Agora só preciso tomar cuidado para não inverter os pesos e começar a ter um monte de sujeira debaixo do tapete apesar de ser feliz.

Como amo essa música, amo Vinicius e amo Toquinho, vou aproveitar o assunto e colocar este video aqui.

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Haja Fluoxetina

Como é que uma mulher que tem filhos, mora em São Paulo e assiste ao Fantástico todos os domingos pode viver sem fluoxetina?  

Entendo que o Fantástico tem um papel jornalístico importante e que sua proposta é destrinchar ao máximo os assuntos que tiveram maior repercussão durante a semana.  Que suas matérias são profundas, investigativas e procuram trazer aos seus espectadores informações e imagens inéditas, além de diversos olhares e opiniões sobre um mesmo assunto.  Mas precisa nos dar toda semana a sensação de que o mundo vai acabar no dia seguinte?  Ainda mais que o dia seguinte é uma segunda-feira, que por si só já é capaz de deprimir qualquer ser humano!

Assunto é o que não falta ao Fantástico.  Se não aconteceu nenhum massacre, assassinato ou acidente terrível durante a semana, eles já lançam mão de matérias sobre consequências fatais do aquecimento global, vírus com potencial de acabar com a humanidade ou previsões de  fenômenos naturais de proporções trágicas.  Não temos como escapar. O mundo vai acabar logo logo.

Mas a culpa não é do Fantástico.  Não dá para achar que o mundo tem salvação diante da notícia de um desgraçado que entrou em uma escola e matou 12 crianças indefesas.  De um pai que jogou a filha pela janela.  De tsunamis que arrasam cidades inteiras.  De terremotos cada vez mais frequentes, fortes e destruidores.  De chuvas e enchentes que derrubam morros e levam casas e vidas.  De aviões que caem.  De bombas que explodem no meio de multidões.

Como não se afetar?  Como ter tranquilidade para criar os filhos e fazer planos para o futuro?  Para mim, temos duas opções: a alienação ou a fluoxetina.

Voltei!

Desde que mudei o layout do blog, não escrevi mais nenhum texto aqui.  Mas meu lado racional não me deixa acreditar que o visual novo tenha tido alguma influência na minha inspiração para escrever.  É muito mais provável que os milhares de eventos, confraternizações, festas e almoços de final de ano tenham suprido a minha necessidade de falar, resultando na falta de assunto (e de tempo) para o blog.  Com um agravante: esta é a época em que estão concentradas quase todas as comemorações do meu ano: além do Natal e Ano Novo, o meu aniversário.  Tudo junto ao mesmo tempo.

Simplesmente adoro o clima especial de fim de ano.  Fico com vontade de encontrar pessoas queridas, conversar, abraçar, comer, beber, festejar.  Para mim, o mês de dezembro é feito para isso.  Um dos presidentes da agência em que trabalho nos mandou um e-mail pós-festas com um texto que traduz bem o que estas comemorações representam para mim:

“Ressacas à parte, algo continua dentro de nós.  Não os resíduos da mesa farta, dos exageros etílico-gastronômicos, mas a dose extra de palavras doces e abraços calorosos muito comuns nessa época do ano.  É com essas manifestações de carinho, ditas ao pé do ouvido ou escritas em cartões e redes sociais, que ganhamos forças para o Ano Novo.  Quem planejou as festas de fim de ano fez um trabalho perfeito: colocou só uma semana entre o Natal e a virada do ano.  Primeiro uma dose de espiritualidade e fraternidade, depois retomar a estrada.  Primeiro comemorar um nascimento importante, depois exercitar a valorização da vida.”

Gostei disso.  Imagine se não tivéssemos estas duas datas comemorativas: o Natal e o Ano Novo.  Quando desejaríamos tantas coisas boas em um mesmo dia para as pessoas que amamos?  Quando iríamos ficar mais sensíveis e generosos, dispostos a fazer o bem a quem precisa?  Quando sentiríamos necessidade de reunir toda a família para esperar um velhinho barbudo trazer um saco de presentes?  Quando comeríamos peru, pernil e rabanada? 😉  E sem o início de um novo ano, como poderíamos estabelecer um momento em que teríamos a oportunidade (mesmo que ilusória) de renovar e recomeçar?  Quando teríamos uma chance de zerar os ponteiros e melhorar o que não está bom?  Quando iríamos parar para fazer um balanço das nossas atitudes e tomar decisões de mudança?

Além do significado literal e religioso destas datas, estes 2 dias são marcos importantes na vida de todos nós.  Quer dizer, podem ser ou não.  Depende do que cada um se propõe a fazer com este momento.  Eu, por exemplo, não perco a oportunidade: faço análise de tudo o que aconteceu no ano,  falo que amo todo mundo que eu amo, choro por nada, dou risada por nada, faço promessas, ouço e canto músicas natalinas, dôo roupas e brinquedos, compro presente para todo mundo, como muito e sem culpa nenhuma, promovo encontros e brindes.  Sem medo de ser feliz, afinal, é só uma vez por ano!

Acho que depois de toda esta explicação, estou perdoada pelo abandono temporário do blog, né?

Sinal vermelho

O stress é o grande vilão da vida moderna, o mundo corporativo exige que seja feito tudo ao mesmo tempo e agora (e se não fizer tem quem faça), as mulheres exercem papéis múltiplos de mãe, mulher, esposa, profissional, dona de casa (e ainda se culpam quando não conseguem fazer tudo o que precisavam), o mundo parece mais acelerado que antes (exceto quando estamos parados durante horas no trânsito).  Blá blá blá blá blá…todo mundo está careca de saber de tudo isso,  já é um assunto batido e explorado ao extremo, e como eu ia dizendo, ninguém tem tempo para isso!

Após o ápice do assunto stress, veio a onda da qualidade de vida, priorização da saúde, equilíbrio emocional, valorização da vida pessoal, outro blá blá blá sem fim que serviu apenas para mascarar o mal que já estava irremediavelmente enraizado na chamada vida moderna.  Aliás, serviu também para complicar ainda mais a nossa vida.

Veja o meu caso: trabalho cerca de 9 horas por dia (em determinadas épocas, a carga horária chega a 12, 13, 14 horas!).  Faço questão de pelo menos levar meus filhos na escola (para não correr o risco de ficar sem vê-los, afinal, não sei se o dia vai até às seis da tarde ou até a meia noite), de arrumar a mochila e lancheira deles todos os dias (além de ler as agendas, comunicados, assinar autorizações, responder recados das professoras, pagar os passeios…) e de conseguir brincar, conversar, beijar, abraçar e fazer dormir as pessoinhas que mais amo na vida.  Tenho que dar orientações e atenção para a Sandra, que apesar de cuidar da minha casa com muita competência e dedicação, precisa que a dona da casa dê algumas diretrizes do que precisa ser feito e resolva as questões domésticas mais importantes.  Preciso também fazer supermercado, ir à farmácia, padaria, comprar presentes de aniversário, roupas para os meninos – inclusive para as festas que precisam de vestimentas especiais: Carnaval, festa junina, halloween, eventos da escola – e roupas para mim (ok, não vou reclamar desta parte).  Como publicitária, tenho que estar sempre muito bem informada, seja sobre política, cultura, inovações tecnológicas, redes sociais, mercado publicitário e até sobre o que está acontecendo no Big Brother Brasil.

Além de, é claro, ter que manter as unhas feitas, a depilação em dia e o cabelo cortado.  Ligar para as amigas (afinal, a amizade também precisa ser alimentada), falar com a mãe, falar com a sogra, tomar pelo menos 2 litros de água por dia, fazer xixi para eliminar todo esse líquido, se alimentar de 3 em 3 horas e escovar os dentes após cada refeição.  Tenho também aula de Pilates, médico, pediatra dos meninos, dentista, e ocasionalmente uma drenagem linfática ou um happy hour para garantir a qualidade de vida…

Ah, tem o marido.  Tem que estar disponível, dar carinho, amor, atenção, e ainda ter criatividade para não deixar o casamento cair na rotina.  Sem esquecer de encontrar um tempinho para tomar banho e dormir todos os dias, é claro.

Mas ser mulher maravilha tem seu preço.  Atenção aos sintomas que sinalizam que você está perdendo o controle da sua vida ou que alguma coisa está errada (baseados em fatos reais):  

– quando você não consegue comprar o que precisa no shopping porque as lojas fecham muito cedo (22 hs!)
– quando você acha um absurdo as padarias e farmácias não funcionarem 24 horas.
– quando você ouve a musiquinha do programa do Jô e pensa: – Ué, achei que ainda estivesse no Jornal Nacional!
– quando acha que está no lucro quando consegue dormir 4 horas por noite – e ainda seguidas!
– quando começa a reclamar que os filmes do Intercine e Corujão são uma porcaria.
– quando sai para almoçar e encontra os restaurantes tirando os pratos do buffet e colocando as cadeiras em cima das mesas.
– quando seu marido diz que precisa te contar uma coisa na segunda-feira e você só fica sabendo do que se trata no sábado.
– quando você reza para chegar o feriado para poder arrumar o seu armário.
– quando você acha na bolsa um pedido de exame médico de 6 meses atrás.
– quando seu filho pede para jogar futebol com ele e você sugere que ele jogue DS ou faça um desenho só para poder ficar um pouco sentada.
– quando você vai fazer seu filho dormir e dorme antes que ele – e em qualquer posição.
– quando você prefere que não tenha feriado para não ter que trabalhar o dobro na semana seguinte.
– quando você consegue dar uma cochilada enquanto o sinal está fechado, acorda com buzinadas e não sabe onde está .
– quando só você consegue assistir a todos os jogos da Liga Mundial de Vôlei Feminino, que acontece no Japão.

É, não tá fácil não…mas ainda tenho tempo de escrever aqui…não é incrível?

Adivinha o que eu queria ser?

Pelo nome do meu blog e pela história que contei para explicar a escolha de “A lousa do quintal da minha vó”,  já dá para imaginar o que eu queria ser quando crescesse, né?  Sim, professora.  Hoje era para ser o meu dia.  Mas não é. 

A minha lousa, além de ser testemunha e cúmplice das coisas que eu escrevia, servia também para eu dar aulas para as minhas bonecas.  Colocava todas elas enfileiradas na minha frente prestando atenção no que eu estava ensinando. Qualquer um que passasse por ali naquela hora – no quintal da minha avó – também tinha que sentar na minha sala de aula e aprender alguma coisa.

Eu adorava ensinar regras complicadas de gramática, técnicas para desenhar personagens de HQ e problemas de matemática, mas a minha especialidade mesmo era alfabetizar.  Todas as empregadas que iam trabalhar na minha casa – na época que eu era criança, elas costumavam dormir lá – tinham que aprender a ler e escrever comigo.  Eu não sossegava enquanto não via que elas tinham aprendido a pelo menos escrever o nome e a ler alguma coisa.  Adorava a sensação de ter feito alguma diferença na vida de uma pessoa.  Me sentia importante, como todos os professores deveriam se sentir no dia de hoje e sempre.

Não sei onde esta minha vontade se perdeu.  Ou não se perdeu, apenas foi deixada de lado para que eu pudesse me dedicar a outros interesses que me pareciam mais prósperos.  Acho que me deixei desanimar pelas dificuldades que a profissão de professor apresentava – neste país em que são tão desvalorizados – e fui trilhar outro caminho.  Nunca vou saber se fiz a coisa certa.  Tento sempre achar similaridades entre o ofício do professor e do publicitário e acredito que existem alguns pontos em comum.  As duas profissões lidam com pessoas, sentimentos, conhecimento, repertórios de palavras e com a arte de se expressar através delas.  É a comunicação para ensinar e a comunicação para vender – no bom sentido da palavra: vender ideias, conceitos, significados, valores e também produtos, é claro!

Mas hoje, depois da escolha feita, continuo admirando (e muitas vezes invejando) os professores.  Nas reuniões de pais na escola dos meus filhos, adoro ouvir as professoras explicarem os projetos que estão sendo propostos, os métodos de ensino que estão sendo aplicados e o desenvolvimento que as crianças estão tendo.  Sempre choro.  Já até me acostumei com os olhares dos outros pais e nem sinto mais vergonha.  Eles não sabem que um dia, o meu sonho foi estar bem ali, ensinando os seus filhos…

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