A piscina, o balão vermelho e o jumento

Ele me chamou de hiperbólica, doutor.  Eu sei o que é hiperbólica, mas achei mesmo um exagero da parte dele.  Não, não estou nada bem, doutor.

Quando me sentia triste assim, costumava mergulhar na piscina durante a noite lá na fazenda Santa Vereda da minha infância.  Quando a madrugada silenciava a noite de vez, ia sorrateira até a piscina e entrava na água gelada tentando me manter no fundo para ouvir o som das minhas tripas.  Depois que as bolhas formadas pelo mergulho subiam à superfície e sumiam, ouvia o líquido interno do meu corpo borbulhar.  Conseguia ouvir a pulsação e até o eriçar dos pelos que se arrepiavam com a temperatura da água.  O senhor sabia que o nosso corpo faz barulho por dentro, doutor?  Claro, esqueci que o senhor é doutor, será que pode então me explicar este caos que os órgãos criam dentro da gente e que só dá para escutar debaixo d’água?  Depois o senhor me explica, agora não quero saber.

Foi lá em Santa Vereda que ganhei um balão vermelho cheio de gás.  Já contei isso, doutor?  Mas me descuidei e ele escapou.  Subiu tão alto que virou um pontinho vermelho no céu da fazenda.  Não tirei os olhos dele até que desaparecesse de vez. Neste dia, ou melhor, nesta noite, fui para a piscina.  Pensava que se fossem mil balões poderiam ter me levado e saberia onde meu vermelho foi parar.

Vermelho é minha cor preferida, sabia disso, doutor?  Até de sangue gosto por causa da cor.  Não me importava vestir as botas com meus pés sangrando. Sangrava também o bucho do jumento que me carregava pela fazenda, ferido pelas esporas da minha bota.  Juvenal era o nome dele, do jumento.  Era jumento forte, de pai e mãe, baixinho, cabeludo, orelhudo, sem mistura com égua que faz nascer burros e mulas.  Já viu jumento fugir, doutor?  Esse fugiu, ninguém mais nunca viu.  Passei noites seguidas na piscina, era inverno e além dos sons habituais, conseguia ouvir também meu estômago se encolher e meu intestino se contorcer de frio.

Antônio fugiu que nem o jumento, sumiu como meu balão vermelho.  Não sem antes usar suas esporas e me chamar de hiperbólica.  Podia ter me chamado de louca, não ia me importar.  Queria mesmo é saber se minhas vísceras continuam fazendo os mesmos barulhos depois de Antônio.  Não vai falar nada, doutor?  Falo eu então.  Se Santa Vereda ainda existisse, mergulharia de novo naquela piscina, mas desta vez esperaria no fundo até as entranhas pararem de gritar.  Quando as bolhas da água da piscina e do meu corpo acabassem, tudo estaria resolvido.  Tudo seria silêncio como do céu, se tivesse voado com meu balão vermelho.  Ou das matas fechadas prá lá dos hectares da fazenda, se tivesse fugido no lombo de Juvenal.  Não usaria mais esporas. Não sangraríamos mais, nem eu nem Juvenal. Não haveria mais Antônio, como já não há.

Sem fazenda, sem piscina, sem balão, sem Juvenal.  Sentirei falta de Antônio como sinto deles?  Sentirá falta de mim, doutor?

Formigamento

O fato ainda não estava consumado, mas era iminente. O inevitável lhe dava certa tranquilidade, mesmo sendo ele próprio o agente da desgraça que estava por vir. Pensou que toda cena que se preze tem que ter um antagonista e que este era um papel que lhe caía bem. Sentia-se confortável como algoz, apesar de encontrar-se muito mal posicionado, agachado diante da parede que sustentava a janela de onde o tiro fatal seria disparado. Uma morte encomendada, mas merecida, justa. Apesar de ser o seu ofício, o seu ganha-pão, interessava-se pela motivação do mandante, queria sempre saber o que a vítima tinha aprontado para merecer tal fim. Tinha a sua ética. Mulher não matava. Criança, nem pensar, mas ninguém encomendava morte de criança. Velhos ele executava sem dó, já tinham vivido o suficiente. Gostava mesmo era dos casos de vingança. Tinha vontade até de dar um desconto na negociação. “Olho por olho dente por dente”, repetia como um mantra, instantes antes da execução do trabalho. Considerava-se um justiceiro, isso o absolvia e espantava para bem longe os demônios da culpa.

Mas por que o condenado demorava tanto? A foto não era muito nítida, precisava estar atento aos passantes da rua escolhida para ser o cenário da tragédia. Ele passaria por ali pontualmente às sete e meia. Desde as seis e meia estava naquela posição que agora não parecia ser a mais adequada. Não podia correr o risco de aparecer na janela. Observava por um buraco na parede, que lhe dava a visão da esquina e de um pedaço pequeno da rua. A janela serviria apenas para dar o tiro quando seu alvo aparecesse.

A espera o deixava raivoso, o que não era de todo mal para quem está prestes a matar alguém. Mas o formigamento repentino das pernas atrapalhou sua concentração. Eram sete e trinta e dois e não podia desviar os olhos daqueles paralelepípedos imundos nem por um segundo. Tentou chacoalhar discretamente as pernas para que o sangue voltasse a circular, mas o movimento fez com que o incômodo virasse uma dor lancinante. Amaldiçoou sua ideia de ficar de cócoras para que tivesse mais agilidade em conferir de quando em quando o começo da rua. Se avistasse o gorducho com mais antecedência poderia se preparar melhor para o momento do disparo. Empunhava a arma já engatilhada, mas sua vontade era de atirar nas próprias pernas que já não obedeciam aos seus comandos.

Eram sete e trinta e quatro, dois minutos que tiveram a mesma duração das 2 horas que costumava passar com seus amigos jogando gamão e tomando cerveja aos domingos. A relatividade do tempo o assombrou. Sentiu no lábio superior uma gota grossa de suor que rolou rapidamente para dentro de sua boca, salgando a dor das agulhadas que já pinicavam seus quadris.

Inoportuno, o corpo roliço da foto entrou em carne e osso no seu campo de visão e se encaixou perfeitamente em seu alvo. Ainda teve tempo de pensar que, se sua presa demorasse um pouco mais, o formigamento poderia ter atingido suas mãos e prejudicado a pressão do dedo indicador no gatilho. Mas elas continuavam assassinas e em forma. Houve um estampido e um som abafado de queda, que podia ser bem de um saco de batatas. Mas era do corpo gordo que foi rodeado por um formigueiro de curiosos formado em poucos minutos. Suas pernas recobraram a circulação, os demônios nem se atreveram a se aproximar e o tempo voltou ao seu ritmo normal.

O primeiro sonho a gente nunca esquece

Há exatamente 20 anos realizei o primeiro sonho da minha vida.  No dia 10 de janeiro de 1992 pisei pela primeira vez na Disney.

Desde muito pequena pedia para o meu pai me levar para a Disney, mas na adolescência, me dei conta de que o lugar mais distante que tinha visitado com meus pais até então, era o Rio de Janeiro.  Todas as férias, a mesma briga.  Minha mãe querendo conhecer algum lugar diferente, eu e minha irmã pedindo para passarmos alguns dias em alguma praia que não fosse Guarujá ou Ubatuba, que eram os destinos certos de todas as férias, alternados com a casa da minha avó, em Pindamonhangaba.

Meu sonho era conhecer a Disney com a minha família, queria muito ter meus pais e minha irmã ao meu lado neste momento, mas sabia que isso tornava meu sonho ainda mais distante.  Definitivamente isso não ia acontecer.  O jeito foi começar a pedir a viagem só para mim, que nesta altura do campeonato já estava bem grandinha e poderia muito bem ir sozinha em uma excursão.  Infernizei a vida do meu pai, não perdia uma oportunidade de pedir, chorar e mostrar o quanto queria fazer aquela viagem.  Mas não adiantava, ele não cedia.  Meu pai é a pessoa mais teimosa que eu conheço. Mas eu sou insuportavelmente insistente e não desistiria até conseguir.

Estive quase perto de conhecer a Disney no meu aniversário de 15 anos.  Meus pais deixaram escapar que o meu presente seria a sonhada viagem, mas a conjuntura política-econômica do Brasil nesta época não estava querendo colaborar muito com os meus planos.  Neste ano de 1989 a inflação estourou, o Collor foi eleito Presidente da República e no início de 90, a simpática e carismática Zélia Cardoso de Mello congelou as cadernetas de poupança de todos os brasileiros.  Ninguém mais podia usar o dinheiro economizado por uma vida inteira de trabalho, e é claro que o meu presente foi pro beleléu.  Este acontecimento afetou tão profundamente a vida de tantas pessoas – que estavam prestes a comprar uma casa, que precisavam do dinheiro para despesas médicas e mil outras situações urgentes e desesperadoras – que adiar mais uma vez a minha viagem não foi o fim do mundo.  Pelo menos a possibilidade foi cogitada, o que já era um grande avanço.  Em 1991 a situação do país deu uma melhorada e eu retomei com todas as forças minha campanha para convencer meu pai da viagem.

No final do ano – acho que era outubro/91 – fomos até a Stella Barros, famosa pela sua especialidade em levar crianças desacompanhadas em TOTAL segurança para a Disney, “só” para pegar algumas informações sobre as excursões.  Estávamos eu, minha mãe, meu pai e minha irmã, e ficamos durante muito tempo ouvindo a moça explicar todos os diferenciais da viagem feita com a tia Augusta (nesta época a tia Augusta trabalhava para a Stella Barros, mais tarde elas se separaram e Tia Augusta abriu sua própria agência), mostrar todos os folhetos dos parques e opções de roteiros, datas e preços.  Meu pai balançava a cabeça, concordando com o que a moça falava – principalmente quando ela detalhava todas as precauções que eram tomadas para garantir a segurança dos menores -, minha mãe parecia bem apreensiva, minha irmã impaciente e eu quase explodindo de tanta ansiedade.  Estava prestes a completar 17 anos, mas naquele momento parecia uma menina de 8.  Lembro que não conseguia prestar atenção em nada do que ela falava – até porque já sabia tudo aquilo de cor – só ficava tentando decifrar a expressão do meu pai, na esperança de algum sinal que indicasse uma chance de ele concordar e fechar a viagem.  Mas já tínhamos ido algumas vezes à agências de viagens para pegar informações, e o final da conversa era sempre o mesmo: – Muito obrigado, vamos pensar um pouco e voltamos a entrar em contato.  Toda vez um belo balde de água fria na minha esperança.

Mas desta vez foi diferente.  Me lembro como se fosse hoje.  A moça acabou de falar, e por um momento – que para mim pareceu uma eternidade – ficamos todos em silêncio.  O meu silêncio era o mais profundo, até a minha respiração estava suspensa na expectativa da sentença final.  Meu pai suspirou, virou todo o corpo em minha direção, olhou bem nos meus olhos e disse: – É isso que você quer MESMO?  Minha respiração quis voltar mas eu respondi que sim antes mesmo de inspirar o ar que estava me faltando.

Ele voltou-se para a moça e disse: – Vamos então fechar a viagem para as duas (eu e minha irmã, que ganhou a viagem no vácuo, de mão beijada), na saída do dia 9 de janeiro.

Assim meu sonho foi realizado.  E foi ainda melhor do que eu imaginava.  Minha prima Renata foi com a gente e pela primeira vez na vida andei de avião.  Chegamos no próprio dia 9 à noite em Orlando e no dia seguinte já estávamos cedinho no Magic Kingdom.  Não tenho como explicar a sensação que tive quando entrei no parque.  Me lembro de cada momento, do cheiro, do vento gelado do inverno de -2ºC (que nem me incomodava, passei o dia inteiro de camiseta) e da minha felicidade naquele lugar mágico.  Me diverti muito, me surpreendi, me encantei, me emocionei, chorei de alegria.

Quase 10 anos depois, em agosto de 2000, voltei à Disney com meu marido, que na época ainda era meu namorado.  Foi o máximo, mas foi diferente, não tinha o gosto da primeira vez.

Hoje tenho mais um sonho: levar meus filhos para a Disney.  Quero que seja no momento certo, que seja especial, esperado, desejado, planejado.  Quero  poder dar este presente para eles.  Quero ver nos olhinhos deles a emoção de passar por esta experiência.  Vai ser diferente da minha, cada um vai sentir e aproveitar da sua maneira particular, mas com certeza será um momento inesquecível para todos nós.  Inesquecível como a minha viagem de 92,  inesquecível como todo sonho que se realiza.

Quero ser protagonista de propaganda de margarina

Pode ser também de Sazón.  Ou de Tang.  Ou até mesmo daqueles comerciais de produtos de limpeza, XR-14 ou Pato Purific.  Ou de todos eles, porque todos têm uma coisa em comum: mostram momentos que eu não consigo experimentar no meu dia a dia, que passam bem longe da minha rotina diária.  E olha que eu já tenho o cenário e elenco perfeitos: marido, casa, 2 filhos, mesa de jantar, fogão, margarina na geladeira, mas nunca protagonizei uma cena como destas propagandas.  Família reunida em volta da mesa posta para o café da manhã, marido sorridente de gravata pedindo gentilmente para passar a margarina e os filhos já arrumadinhos e lindinhos, prontos para ir para a escola.  Todos alegres, tranquilos, sem nenhuma pressa para o longo dia que os espera.  Aliás, o dia está sempre ensolarado sem uma nuvem no céu, alguém já viu propaganda de margarina num dia feio e chuvoso?

Aí vem o almoço, o dia continua lindo e a protagonista está no fogão, ao lado da empregada também sorridente de avental impecável, mexendo uma panela de feijão fresquinho, exalando um cheiro que somos capazes de sentir do outro lado da televisão.  Todos voltam para casa para almoçar, sentam juntos à mesa, experimentam o melhor feijão da vida deles e enchem a mulher de elogios e beijos.

O Tang vem à tarde, quando todos os amiguinhos do filho estão brincando alegremente no quintal e a mãe – a mesma protagonista do café da manhã e do almoço repletos de felicidade – chama toda a molecada para tomar um copo de suco que ela acabou de fazer em 2 minutos numa jarra linda de cristal.  Todos obedecem na hora (ha ha ha!), vêm correndo e bebem aquele suco aguado como se fosse uma deliciosa coca-cola gelada.  Chega o jantar, mas a protagonista está um pouco atarefada com a limpeza da casa.  É um episódio tenso do seu dia, mas neste momento a empregada lhe apresenta um XR-14, que num passe de mágica, tira todas as manchas, gorduras e sujeiras que o delicioso e elogiado feijão deixou no fogão.  Pronto, ela já está linda novamente para receber os filhos e o marido – ainda sorridentes -, servir uma suculenta lasanha pronta da Sadia que esquentou em 10 minutos e receber mais elogios e beijinhos para fechar a sua árdua maratona diária.  Ufa!

Se eu quero essa vida?  Não, porque além de ser chata, ela não existe, mas queria sim viver alguns momentos como estes.  Por que não?  Como sonhar não custa nada, poderia também incluir umas cenas de propaganda de desodorante, em que a fofa da protagonista vai andando pela rua soltando pétalas de rosas pelas axilas.  Podem entrar também umas cenas de Molico, em que ela toma seu leite se espreguiçando e quase levitando diante de um mar azul maravilhoso.  Para completar o dia, pitadas dos momentos simples e felizes da campanha do Pão de Açúcar, como comer um pão francês quentinho – tem que ter a fumacinha – ou queijo com goiabada, arroz com feijão, brigadeiro na panela.  Brincar na areia da praia, dançar na chuva sem preocupação, falar bobagem, fazer nada, fazer de tudo, andar descalço, abraçar quem se ama.  Delícia de vida.

Mas quer saber, o que eu quero mesmo é não ter roteiros definidos para a minha vida, é apenas ter alegria, sabedoria e saúde para enfrentar e receber de braços abertos os momentos que a vida me apresentar.  Que sejam previstos ou inesperados, bons ou ruins, simples ou extraordinários, mas que sejam os meus momentos, aproveitados e vividos da minha forma, do meu jeito.

Vou continuar chorando em propaganda de margarina – esse é o meu jeito -, mas o que eu quero mesmo é ser protagonista da minha vida!

Para relembrar (e chorar…):

Doriana – Os elogios são pra você – 1986

Clássica homenagem do Tang ao Dia das Mães

Sazon, o tempero do amor

O que faz você feliz?

Este comercial da Sadia é um dos mais emocionantes que já vi, lembro que na faculdade tive uma aula de Mídia com este filme e jamais me esqueci dele.  E ainda virei fã do Placido Domingo, que canta a música Perhaps Love lindamente.

Sadia 50 anos

Just Married

Ontem fiz 10 anos de casada.  Não vou nem comentar o quanto o tempo passou rápido e nem entrar em detalhes de um relacionamento que na verdade já dura quase 17 anos – contando com o tempo de namoro.  Até porque precisaria de um blog exclusivo para contar todas as histórias, surpresas, sustos, alegrias, decepções, conquistas, viagens, brigas e milhões de outros momentos que vivemos juntos durante todo este tempo.  Muito tempo, muita coisa, ave Maria!  Também não vou fazer apologia ao casamento e muito menos destruir sonhos de mocinhas (e mocinhos, por que não?) que ainda querem casar e viver felizes para sempre.  Cada um tem seu caminho, suas escolhas e seu destino.

Quero falar sobre o evento casamento, que sem dúvida nenhuma, é um dos momentos mais inesquecíveis da vida de qualquer pessoa.  Me refiro à comemoração da união de duas pessoas.  Com ou sem glamour, com ou sem cerimônia religiosa, com ou sem dinheiro, com ou sem bem-casados, é a celebração do amor e da vontade declarada de duas pessoas de compartilhar o seu futuro com a outra.  É sacramentar a sua disposição de confiar à outra pessoa os seus sonhos e planos.

O meu casamento foi bem emocionante.  Na verdade, estava mais para uma novela mexicana de tanto que as pessoas choraram durante a cerimônia.  Até hoje não sei bem como se deu aquela comoção generalizada na igreja.  A única coisa que tenho certeza é que o desencadeador do chororô foi o Alexandre, que abriu o berreiro – chorou de soluçar mesmo – logo quando eu entrei na igreja.  Todos ficaram em choque.  O Alexandre?  O cara mais durão, mais racional e menos emotivo que todo mundo ali conhecia?  Eu nunca tinha visto ele chorar em 7 anos de namoro.  Quando dei de cara com ele no altar em prantos, achei por alguns milésimos de segundo que tinha acontecido alguma desgraça.  Que talvez ele estivesse arrependido.  Várias coisas me passaram pela cabeça até eu olhar para os lados e conferir que estava tudo certo.  Ele estava apenas emocionado. 🙂

Adorei ter preparado todos os detalhes do meu casamento.  É muita coisa para pensar e providenciar, confesso que fiquei quase louca, mas sinto saudades daquela época (apesar de parecer ter sido ontem).  O evento casamento implica em muitos preparativos, muitas decisões e muita energia.  Me lembro de alguns episódios muito divertidos que valeram todo o cansaço e o trabalho que tive, mas também de micos e coisas que deram completamente errado.

Esta é a minha listinha do melhor e do pior de um casamento (veja bem, de um evento de casamento, não dos meus 10 anos de casamento), desde os preparativos até a festa.

O MELHOR

– Fazer todas as degustações nos fornecedores: do coquetel, do jantar, dos docinhos, do bolo, dos bem-casados…é sem dúvida a melhor parte dos preparativos, já que na festa do casamento a noiva não come nada, ou se come, nem sente o gosto.

– Ver a cara da sua mãe (e da sua irmã) quando você experimenta um vestido de noiva pela primeira vez.

– Fazer o teste de cabelo e maquiagem e sair depois com as amigas para aproveitar o look.

– Escolher a playlist do DJ – a festa é sua, você escolhe tudo!

– Fazer listas de presentes nas lojas.  Você vai passeando com a vendedora pela loja e só vai dizendo: – Quero isso, isso, isso também, aquilo, aquele outro também…hum, acho que quero esse aqui também…

– Convidar as madrinhas e padrinhos.  É uma forma de dizer o quanto aquelas pessoas são especiais na sua vida.

– Dar tchauzinho de dentro do carro quando você está indo para a igreja vestida de noiva.  Todas as pessoas param para olhar e você se sente a própria miss universo.

– O frio na barriga e o nó na garganta que dá quando as portas da igreja abrem e a música toca para você entrar – não, eu não entrei ao som da marcha nupcial (muito padrão para a minha cabeça ;))

Ganhar aplausos após o beijo na igreja. Há 10 anos atrás isso não era comum, foi a primeira vez que vi um padre pedir aplausos para os noivos.

– No meu caso, ter parado durante a saída da igreja para dar um beijo na minha avó, que estava sentadinha em um dos primeiros bancos com os olhos cheios d´água.

– Saber que naquele dia você conseguiu reunir todas (ou quase todas) as pessoas que você mais gosta, simplesmente para comemorar a sua felicidade.

– Levar para a lua de mel uma caixinha com os doces e bem-casados da festa.

O PIOR

– Sem dúvida, fazer a lista de convidados, quer dizer, fazer o corte na lista de convidados.  O problema é ainda maior se você trabalha e se relaciona bem com todo mundo do escritório.

– Ainda no assunto lista, ter que convidar a tia avó do seu pai que mora em Pirapora do Norte porque se não convidar, fica chato para a família.

– Se for casar na igreja, ter que combinar a decoração com as outras noivas do dia.  Se pega uma menina brega e chata, é uma dor de cabeça sem fim.

– O episódio igreja tem muitas chatices, uma delas é reunir toda a documentação exigida, que inclui certificado de Batismo e Comunhão.

– Ter que fazer curso de noivos.  Definitivamente inútil.

– Fazer planilhas e planilhas para conseguir controlar os gastos intermináveis.

– Ser explorada pelos fornecedores que acham que você é uma mina de ouro.  Eles tem plena convicção de que, como o casamento geralmente é a realização de um sonho, podem cobrar o que quiserem pelos seus serviços.

– Ter a sensação (e a constatação) de ter gasto uma fortuna em uma só noite.

– Perceber no meio da festa que algum fornecedor não entregou o que foi combinado.  Sim, aconteceu comigo.  Sem comentários.

Mas no final, só ficam as lembranças boas e um gosto de quero mais.  Se não estivéssemos tão falidos com a compra do apartamento novo, com certeza faríamos alguma comemoração nestes 10 anos de casados.

Hoje, bem mais do que há 10 anos atrás, sabemos o quanto esta data merece ser comemorada.

O auge do chororô. E as luvas que eram um must há 10 anos atrás?

Choradeira geral

O início dos 10 anos

Apesar de…feliz!

Difícil achar um assunto mais batido e discutido do que a felicidade, mas para mim, existe um aspecto muito particular quando penso na minha própria felicidade.  Transito em uma zona de conforto em que sou sempre feliz apesar de alguma coisa.  Este “apesar de” me protege e me afasta da felicidade plena, que me parece muito perigosa, um fim de caminho, um  prêmio do qual somente raros seres humanos devem ser merecedores.  E eu é que não devo ser.

É claro que a minha formação católica e as inúmeras aulas de religião que tive na escola devem ter tido alguma influência neste meu medo e principalmente culpa de me sentir feliz em um mundo predominantemente infeliz.  Meu pensamento é simples: o que me deixa feliz de verdade, por mais piegas que seja, são os valores mais importantes da vida mesmo.  É ter minha família e amigos com saúde, proteção, alegria e bem perto de mim.  E é aí que entra o “apesar de”.  Ele é a minha disposição de abrir mão de coisas menos importantes – mas que podem me fazer muito feliz também – para garantir aquelas que considero mais importantes (como se fosse possível garantir alguma coisa nessa vida…).

Na minha lógica irracional, preciso do meu “apesar de” para atrapalhar um pouco a minha felicidade e aliviar minha consciência.  O mais importante então,  é que o “apesar de” seja fácil de se conviver, afinal, ele exerce este papel na minha felicidade, mas não deixa de ser aquele calo chato e mal resolvido que vira e mexe fica incomodando e atormentando a vida.  Geralmente é uma vontade ignorada, um problema que fingimos não existir, um incômodo menosprezado como aquela sujeira que se varre para debaixo do tapete…mas que sabemos que está lá.  Não acho que vou conseguir me livrar do “apesar de” (e nem sei se quero!), mas acho que ele precisa ser mudado de vez em quando.  Um problema pequeno não resolvido e ignorado por muito tempo pode tomar proporções gigantescas e acabar virando razão de infelicidade.

OK, mas cadê a coragem de levantar o tapete e tirar toda a sujeira acumulada lá debaixo?  Será melhor manter este “apesar de” quieto no canto e continuar feliz?  Ou será que chegou a hora de resolver esta questão e arrumar outro “apesar de” para manter a tal felicidade não plena da qual sou merecedora?  E quem disse que sou merecedora?

Bom, por enquanto Deus está cumprindo com o nosso trato.  E eu também estou acumulando alguns “apesar de” que precisam ser reavaliados, resolvidos ou substituídos.  Agora só preciso tomar cuidado para não inverter os pesos e começar a ter um monte de sujeira debaixo do tapete apesar de ser feliz.

Como amo essa música, amo Vinicius e amo Toquinho, vou aproveitar o assunto e colocar este video aqui.

Chama a Granero

Estou de mudança.  De casa.  Mudança boa, trabalhosa, planejada, esperada, sonhada.  Algumas mudanças a gente escolhe fazer.  Outras não.  A vida vem e simplesmente muda tudo.  Bagunça o que estava arrumado, transforma certezas em dúvidas, medos em fatos.  Sem preparação, sem planejamento, sem anestesia.

E aí, lá vai a gente correr para encaixotar histórias, embalar sentimentos e arrumar as emoções a tempo da mudança.  Geralmente não dá tempo.  A mudança acontece e só conseguimos colocar a vida em ordem depois de muito tempo.  Algumas caixas ficam fechadas e esquecidas em um canto qualquer, outras precisam ser abertas e arrumadas com urgência.

Algumas mudanças parecem verdadeiros tsunamis, que devastam tudo o que parecia estar estabelecido e deixam quase nenhuma chance da vida voltar a ser o que era.  Mudou, está mudado.  Para sempre, sem volta.  Tem também as mudanças de menor proporção, mas que também são definitivas.  Nada volta a ser como era antes.  Outras mudanças podem parecer assustadoras, mas não passam de uma marolinha, um susto que depois de um certo tempo pode ser superado.

Mas uma coisa é comum a todas as situações que provocam mudanças: elas sempre deixam marcas.  Profundas ou superficiais, sempre são marcas que despertam um olhar diferente para a vida ou determinam um novo comportamento ou fazem nascer um novo sentimento, ou ou ou ou ou qualquer coisa.  O poder de uma mudança imposta pela vida é incomensurável.  Assim como o peso e o tamanho das caixas que ela nos faz carregar.

Só nos resta acreditar que Deus sabe o peso que cada um pode aguentar.  Porque estas caixas, só a gente pode carregar, não dá para chamar a Granero para ajudar.

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