Pediculose

Não foi tão ruim assim.  Meu avô teve que arrancar todos os dentes da boca aos dezoito anos para se curar de um problema de nervos.  Tempos ignorantes.  Não tão diferentes de hoje, que faz uma criança raspar a cabeça por causa de piolho. Parasita sanguinário que resolveu brotar e procriar na cabeleira do meu filho. Não teve Escabin, Kwell ou Piolin que desse conta do extermínio da família Pediculus Humanus Capitis, uma atitude mais drástica foi necessária.  Destruir o habitat, acabar com aquela moradia que a cada cinco minutos era assaltada por dedos ansiosos e frenéticos  em busca de alívio para a coceira inconveniente.

A máquina zero descobriu um couro cabeludo ferido por picadas e unhadas.  Mas acabou definitivamente com o incômodo que já durava mais de duas semanas.  Quinze dias de hospedagem e alimentação farta para um enxame de minúsculas baratas transparentes que escurecem quando empanturradas de sangue.  Malditos piolhos.

Ao menos a careca raspada não foi em vão como a retirada dos dentes do meu avô, que só melhorou dos nervos com quase oitenta anos quando finalmente concordou em se tratar com Prozac.  Não sem antes relutar.  Se tivesse mais dentes preferiria tirá-los a tomar aquela droga da moda.  Morreu de dentadura e com os nervos cansados.

Já meu filho, está cheio de cabelos novamente, pronto para a próxima batalha da vida.  É, não foi tão ruim assim.

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Exagero em excesso desmedido

Ela era compulsiva.  Tudo o que ela fazia era exagerado.  Comia até explodir, bebia até cair, comprava muito mais que permitia sua conta bancária, falava sempre mais do que devia, virava noites trabalhando, mas quando cismava que precisava de descanso, passava dias e noites sem fazer absolutamente nada.  Era tudo sem limites.  Amava ao extremo, odiava com uma raiva que não cabia dentro de si.  Chorava por horas a fio ou ria até perder o ar.  Nada na vida dela era ameno.  Tudo o que ela vivia era intenso, quer dizer, ela fazia com que tudo ganhasse uma dimensão sobrenatural.

O problema é que ninguém conseguia conviver com ela, com seus ímpetos incontroláveis.  E um dia, ela se viu profundamente só e isso a deixou extremamente triste.  Era uma tristeza sem fim, que tomava conta da sua vida e não deixava espaço para mais nenhuma de suas compulsões.  Depois de chegar ao fundo do poço, resolveu assumir que estava doente e foi se tratar.  Como de costume, se dedicou a isso com o mesmo afinco que se entregou à sua tristeza, com a mesma voracidade com que devorava quilos de chocolate e a mesma energia que empregava quando gastava todo o seu salário em duas horinhas de shopping.  O empenho foi tanto, que depois de 2 meses de tratamento, se julgou curada.  Sim, ela própria se deu alta e informou ao médico que deixaria de tomar os medicamentos e de freqüentar a terapia.  O médico tentou explicar que este tipo de tratamento geralmente levava em média um ano e que a atitude dela durante o tratamento intensivíssimo era mais um indício de que ela ainda precisava de ajuda, mas não conseguiu.  Só conseguiu que ela ouvisse seu último e derradeiro aviso: – Ei menina, não vai fazer nenhum estrago hein!  Ela olhou para trás e toda faceira mandou um beijinho para o doutor. 

Estava convencida de que já estava completamente curada daquela tristeza medonha e que agora se sentia a pessoa mais feliz do mundo – apesar de não ter havido absolutamente nenhuma mudança na sua vida.  E lá foi ela pelo mundo com uma alegria incontrolável e dilacerante, se esquecendo de que sua doença era o exagero e não a tristeza.  E o estrago estava feito.

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