Tetris

Com a morte da minha avó no final de 2009, uma geração inteira da minha família desapareceu. A camada dos velhinhos, dos avós que nasceram nas primeiras décadas de 1900, que testemunharam as duas guerras mundiais (e muitas outras) e viveram boa parte da vida sem carro, televisão e fast food (e acreditem, eram felizes!). Cheios de histórias para contar, me arrependo por não ter prestado mais atenção a elas. Viagens longas de trem ou navio, casamentos arranjados, amores impossíveis, doenças sem cura, mulheres resignadas, conquistas e perdas, vícios escondidos, crenças exageradas.  As que foram contadas – e que ainda são lembradas – vêm sendo repassadas para as gerações seguintes, mas como num telefone sem fio, algumas informações e detalhes são deturpados ou perdidos. Agora é tarde, não sobrou ninguém para corrigir ou tirar as dúvidas. Tenho vontade de revirar baús, procurar cartas antigas, conhecer lugares onde eles viveram e que não existem mais. Queria recuperar o que ficou perdido para sempre.

Parece até um jogo de Tetris, onde as linhas que vão sendo preenchidas somem. A linha dos meus avós sumiu. Assim, todas as linhas seguintes desceram, e pela ordem natural das coisas, a de baixo é a próxima a ser exterminada. Agora a geração dos meus pais está na linha da berlinda, eles tomaram o lugar e o papel dos mais velhos da família. A geração das crianças foi promovida a adultos e os pais viraram avós. Meus filhos e sobrinhos já ocupam a camada que era minha, da minha irmã e de meus primos.  Agora eles são as crianças, o centro das atenções, a promessa do futuro da família. Eu estou na linha que era dos meus pais, a camada principal, que manda, trabalha, paga, organiza e que cuida da camada de cima e de baixo. Meus pais e tios que até pouco tempo protagonizavam a família, agora descansam e se recolhem à função de avós, mimando os netos com elogios corujas, bolos e histórias. Os elogios são outros – os que meus avós faziam eram em árabe – as histórias são diferentes e até o bolo não tem o mesmo sabor. É o sabor de uma geração que ainda é nova, mas tem que aprender a ser velha. Sua casa agora é onde todos se reúnem, onde as datas mais importantes são comemoradas, onde a família se sente completa.

Ainda estamos meio desconfortáveis na nova camada recém-alcançada, como uma promoção fora de hora. Mas logo vamos nos acostumar. No Tetris, o tempo passa mais depressa conforme as fileiras são eliminadas, mas no caso da realidade isso é apenas uma sensação. Temos ainda muito tempo pela frente para aprender a exercer da melhor forma nossas novas funções e deixar o jogo na hora certa, quando a missão estiver cumprida. Como a geração dos meus avós.

O primeiro sonho a gente nunca esquece

Há exatamente 20 anos realizei o primeiro sonho da minha vida.  No dia 10 de janeiro de 1992 pisei pela primeira vez na Disney.

Desde muito pequena pedia para o meu pai me levar para a Disney, mas na adolescência, me dei conta de que o lugar mais distante que tinha visitado com meus pais até então, era o Rio de Janeiro.  Todas as férias, a mesma briga.  Minha mãe querendo conhecer algum lugar diferente, eu e minha irmã pedindo para passarmos alguns dias em alguma praia que não fosse Guarujá ou Ubatuba, que eram os destinos certos de todas as férias, alternados com a casa da minha avó, em Pindamonhangaba.

Meu sonho era conhecer a Disney com a minha família, queria muito ter meus pais e minha irmã ao meu lado neste momento, mas sabia que isso tornava meu sonho ainda mais distante.  Definitivamente isso não ia acontecer.  O jeito foi começar a pedir a viagem só para mim, que nesta altura do campeonato já estava bem grandinha e poderia muito bem ir sozinha em uma excursão.  Infernizei a vida do meu pai, não perdia uma oportunidade de pedir, chorar e mostrar o quanto queria fazer aquela viagem.  Mas não adiantava, ele não cedia.  Meu pai é a pessoa mais teimosa que eu conheço. Mas eu sou insuportavelmente insistente e não desistiria até conseguir.

Estive quase perto de conhecer a Disney no meu aniversário de 15 anos.  Meus pais deixaram escapar que o meu presente seria a sonhada viagem, mas a conjuntura política-econômica do Brasil nesta época não estava querendo colaborar muito com os meus planos.  Neste ano de 1989 a inflação estourou, o Collor foi eleito Presidente da República e no início de 90, a simpática e carismática Zélia Cardoso de Mello congelou as cadernetas de poupança de todos os brasileiros.  Ninguém mais podia usar o dinheiro economizado por uma vida inteira de trabalho, e é claro que o meu presente foi pro beleléu.  Este acontecimento afetou tão profundamente a vida de tantas pessoas – que estavam prestes a comprar uma casa, que precisavam do dinheiro para despesas médicas e mil outras situações urgentes e desesperadoras – que adiar mais uma vez a minha viagem não foi o fim do mundo.  Pelo menos a possibilidade foi cogitada, o que já era um grande avanço.  Em 1991 a situação do país deu uma melhorada e eu retomei com todas as forças minha campanha para convencer meu pai da viagem.

No final do ano – acho que era outubro/91 – fomos até a Stella Barros, famosa pela sua especialidade em levar crianças desacompanhadas em TOTAL segurança para a Disney, “só” para pegar algumas informações sobre as excursões.  Estávamos eu, minha mãe, meu pai e minha irmã, e ficamos durante muito tempo ouvindo a moça explicar todos os diferenciais da viagem feita com a tia Augusta (nesta época a tia Augusta trabalhava para a Stella Barros, mais tarde elas se separaram e Tia Augusta abriu sua própria agência), mostrar todos os folhetos dos parques e opções de roteiros, datas e preços.  Meu pai balançava a cabeça, concordando com o que a moça falava – principalmente quando ela detalhava todas as precauções que eram tomadas para garantir a segurança dos menores -, minha mãe parecia bem apreensiva, minha irmã impaciente e eu quase explodindo de tanta ansiedade.  Estava prestes a completar 17 anos, mas naquele momento parecia uma menina de 8.  Lembro que não conseguia prestar atenção em nada do que ela falava – até porque já sabia tudo aquilo de cor – só ficava tentando decifrar a expressão do meu pai, na esperança de algum sinal que indicasse uma chance de ele concordar e fechar a viagem.  Mas já tínhamos ido algumas vezes à agências de viagens para pegar informações, e o final da conversa era sempre o mesmo: – Muito obrigado, vamos pensar um pouco e voltamos a entrar em contato.  Toda vez um belo balde de água fria na minha esperança.

Mas desta vez foi diferente.  Me lembro como se fosse hoje.  A moça acabou de falar, e por um momento – que para mim pareceu uma eternidade – ficamos todos em silêncio.  O meu silêncio era o mais profundo, até a minha respiração estava suspensa na expectativa da sentença final.  Meu pai suspirou, virou todo o corpo em minha direção, olhou bem nos meus olhos e disse: – É isso que você quer MESMO?  Minha respiração quis voltar mas eu respondi que sim antes mesmo de inspirar o ar que estava me faltando.

Ele voltou-se para a moça e disse: – Vamos então fechar a viagem para as duas (eu e minha irmã, que ganhou a viagem no vácuo, de mão beijada), na saída do dia 9 de janeiro.

Assim meu sonho foi realizado.  E foi ainda melhor do que eu imaginava.  Minha prima Renata foi com a gente e pela primeira vez na vida andei de avião.  Chegamos no próprio dia 9 à noite em Orlando e no dia seguinte já estávamos cedinho no Magic Kingdom.  Não tenho como explicar a sensação que tive quando entrei no parque.  Me lembro de cada momento, do cheiro, do vento gelado do inverno de -2ºC (que nem me incomodava, passei o dia inteiro de camiseta) e da minha felicidade naquele lugar mágico.  Me diverti muito, me surpreendi, me encantei, me emocionei, chorei de alegria.

Quase 10 anos depois, em agosto de 2000, voltei à Disney com meu marido, que na época ainda era meu namorado.  Foi o máximo, mas foi diferente, não tinha o gosto da primeira vez.

Hoje tenho mais um sonho: levar meus filhos para a Disney.  Quero que seja no momento certo, que seja especial, esperado, desejado, planejado.  Quero  poder dar este presente para eles.  Quero ver nos olhinhos deles a emoção de passar por esta experiência.  Vai ser diferente da minha, cada um vai sentir e aproveitar da sua maneira particular, mas com certeza será um momento inesquecível para todos nós.  Inesquecível como a minha viagem de 92,  inesquecível como todo sonho que se realiza.

Haja Fluoxetina

Como é que uma mulher que tem filhos, mora em São Paulo e assiste ao Fantástico todos os domingos pode viver sem fluoxetina?  

Entendo que o Fantástico tem um papel jornalístico importante e que sua proposta é destrinchar ao máximo os assuntos que tiveram maior repercussão durante a semana.  Que suas matérias são profundas, investigativas e procuram trazer aos seus espectadores informações e imagens inéditas, além de diversos olhares e opiniões sobre um mesmo assunto.  Mas precisa nos dar toda semana a sensação de que o mundo vai acabar no dia seguinte?  Ainda mais que o dia seguinte é uma segunda-feira, que por si só já é capaz de deprimir qualquer ser humano!

Assunto é o que não falta ao Fantástico.  Se não aconteceu nenhum massacre, assassinato ou acidente terrível durante a semana, eles já lançam mão de matérias sobre consequências fatais do aquecimento global, vírus com potencial de acabar com a humanidade ou previsões de  fenômenos naturais de proporções trágicas.  Não temos como escapar. O mundo vai acabar logo logo.

Mas a culpa não é do Fantástico.  Não dá para achar que o mundo tem salvação diante da notícia de um desgraçado que entrou em uma escola e matou 12 crianças indefesas.  De um pai que jogou a filha pela janela.  De tsunamis que arrasam cidades inteiras.  De terremotos cada vez mais frequentes, fortes e destruidores.  De chuvas e enchentes que derrubam morros e levam casas e vidas.  De aviões que caem.  De bombas que explodem no meio de multidões.

Como não se afetar?  Como ter tranquilidade para criar os filhos e fazer planos para o futuro?  Para mim, temos duas opções: a alienação ou a fluoxetina.

Salve Ruth Rocha

Ruth Rocha é o máximo!  Amo seus livros, suas histórias, suas palavras e sua trajetória de vida.  Lembro dela quase todas as noites quando tento inventar alguma história para os meus filhos.  Já consegui emplacar algumas, que viraram hits e estão entre as preferidas dos meninos (num outro dia conto uma aqui), mas só eu sei como quebrei a cabeça para estruturar alguma coisa que fizesse sentido.  Sim, porque a história tem que ter começo, meio e fim.  Tem que ter um personagem legal e carismático e outro malvado para dar caldo.  Tem que ter alguma graça, alguma piadinha no meio – pelo menos as minhas têm que ter!  E como é uma história para crianças, é obrigatório ter uma liçãozinha de moral básica no final.  Nada fácil. 

E aí, eu pego os livros da Ruth Rocha – que enriqueceram a minha infância e agora divertem meus filhos – e fico imaginando com que facilidade ela consegue fazer isso.  Há tantos anos e tão bem.

O que dizer de “Marcelo, Marmelo, Martelo”, seu livro mais famoso, que já vendeu mais de 1 milhão de cópias?  Com certeza ele foi um dos responsáveis pela minha paixão pela leitura.  Não dá para esquecer as histórias do Dono da Bola,  da Teresinha e Gabriela e é claro, do Marcelo e seus porquês.  Um clássico obrigatório para todas as gerações.  Dentre os mais de 130 títulos já publicados por Ruth Rocha, recomendo todos os que já li: “O Reizinho Mandão”, “Um Cantinho só pra mim”, “Palavras, muitas palavras”, “Quem tem medo de quê?”, “Romeu e Julieta”, “Bom dia todas as Cores” e “O Barba Azul”.  Mas ainda quero ler todos os outros.  Os títulos estão relacionados aqui, no site da Ruth Rocha, onde dá também para se divertir com as crianças em brincadeiras de palavras, como Cruzadinhas e O que é, o que é?.  Lá também tem a história de vida da Ruth, que começou a carreira como jornalista e só depois se enveredou para a literatura infantil. 

Mas o que me inspirou mesmo para escrever este post sobre a Ruth Rocha, foi uma matéria publicada na Revista Mais – do Programa de Relacionamento do Pão de Açúcar, por acaso meu cliente – em que ela fala sobre o AMOR.  Vale a pena conferir a entrevista completa no site do Mais.  O texto já começa dizendo que “Ruth Rocha é fácil de amar” e conta a trajetória dos seus quase 80 anos, sob a perspectiva do amor.  Amor aos pais, ao marido – com quem está casada há 54 anos – à única filha, aos netos e a todas as crianças, que aprendem através de suas histórias, valores como justiça, sinceridade e igualdade de direitos.  Para ilustrar este dom de transformar histórias em mensagens, um trecho da entrevista em que ela conta um episódio que viveu com a filha:

“Não é à toa que começou a escrever histórias para crianças quando sua filha única, Mariana, lhe pedia para inventar causos, e um dia, como todas as crianças, veio com pergunta desconcertante. “Todo preto é pobre?” Ruth sapecou na hora um conto sobre o amor de duas borboletas que não podiam ficar juntas porque uma era azul, a outra, amarela. “Elas se casavam no final e tinham como filho uma borboleta verde. Aí fui falando mais sobre racismo, sobre temas assim”, diz Ruth, que para explicar a pobreza precisou esperar a menina crescer um pouquinho e lhe contar os fatos na real.”

É, Ruth Rocha é bem fácil de amar!  Salve Ruth!

Ruth Rocha

Banho de porquês

Meu filho de 2 anos e meio está na fase dos porquês.  Além disso, é uma criança muito teimosa e desafiadora, que não desiste fácil quando cisma com alguma coisa ou assunto. 

O momento é a hora do banho.  Ele já toma banho no chuveiro e tem absoluta certeza de que sabe perfeitamente se ensaboar, enxaguar e enxugar sozinho.  Tenho que inventar mil artifícios e histórias para convencê-lo a me deixar ajudar em alguns momentos.  O resultado são banhos demorados e cheios de oportunidades de interagir e tentar ensiná-lo a realmente se lavar sozinho.

Começou assim: – Mamãe, puquê o sabonete arde o olho? (ele tinha esfregado os olhos com a mão ensaboada)

– Porque ele serve para limpar a nossa pele e não os olhos. (falei meio sem certeza de que essa era a resposta certa)

– Puquê ele seve pa limpá?

– Hum…porque ele é feito especialmente para tirar a sujeira do nosso corpo. (estava com menos certeza ainda do que na primeira resposta) 

– Mas…puquê?

– Por que o que, meu amor?

– Puquê ele arde?

Ai caramba, o negócio estava ficando complicado.  Percebi que nunca tinha pensado neste assunto.  Minhas respostas não estavam satisfazendo a curiosidade dele.  Ou então eu não estava sendo didática o suficiente.  Ou ele estava me desafiando?  Enfim, pensei mais um pouco e respondi: – Porque o sabonete tem um perfuminho dentro, que faz esta espuminha que limpa o nosso corpo, mas que arde se entrar nos nossos olhos.

Vi que tinha me complicado ainda mais tentando usar uma linguagem infantilizada:

– Mas puquê faz epuminha, mamãe?

– É que a espuminha…(ai meu Deus, e agora?) a espuminha…é…é…ela aparece quando esfregamos o sabonete, e aí, ela é importante porque pega a sujeirinha da nossa pele e leva embora junto com a água.  Entendeu?

Olhei para ele quase que implorando por um sim.

– Tá bom, mamãe.

Ufa!  Ele se contentou com a resposta.  Ficou um tempinho ensaboando a barriga e olhando atentamente para a tal da espuminha mágica que leva a sujeira embora.  Eu estava orgulhosa com meu poder de convencimento – ou de enrolação – quando ele levantou a cabeça e disse:

– Mas mamãe?  Puquê a epuminha arde o olho?

NÃO!!!  Meu repertório de respostas esfarrapadas para assuntos nunca antes analisados estava esgotado!  Não aguentava mais falar sobre sabonete e espuminha!  Respirei fundo, olhei para ele bem séria e disse de forma muito convicta:

– É porque tem SODA CÁUSTICA, é por isso!

– Soda cáxica?

– É, Thiago, SODA CÁUSTICA, ok?  É ela que faz arder o olho.  (não tinha ideia se soda cáustica era realmente um componente do sabonete, fazia sentido na minha cabeça e falei como um último pedido de socorro).

Ele colocou o sabonete na saboneteira, pegou um brinquedinho no chão do box e não falou mais no assunto.  Passei o resto do banho com medo que ele resolvesse me perguntar sobre a “soda cáxica”.  Mas não perguntou.  Perguntou por que a aguinha continuava saindo depois que eu desligava o chuveiro, por que a toalha dele era azul e a do Pedro verde, por que ele não estava vendo nada no espelho (embaçado) e por que tinha que pôr a roupa pra gente passear (essa pergunta ele faz no final de todos os banhos).

Depois do episódio, fiquei tentando descobrir o que teria feito ele parar de perguntar sobre o bendito sabonete.  Será que ele percebeu a minha cara de aflição e impaciência?  Será que ficou com pena de mim ou apenas cansou do assunto?  Ou será que a soda cáustica foi tão poderosa que ele imaginou que aquele nome esquisito devia mesmo fazer arder os olhos?

Não sei.  Só sei que se ele perguntasse sobre sexo, estaria bem mais preparada! 🙂

Cheiro de filho

Tenho o costume (ok, pode chamar também de mania, vício ou até TOC ) de toda noite ir até o quarto dos meus filhos e cheirar a cabeça deles.  Não, não é em qualquer lugar da cabeça, é em uma parte específica em que descobri a maior concentração do verdadeiro cheiro da criança.  É sério, é no alto da testa, onde nasce o cabelo.  É onde a criança geralmente fica mais suadinha.  Há pouco tempo atrás, estava no pediatra dos meus filhos e coincidentemente ele explicou que as crianças têm muitas glândulas sudoríparas na cabeça e por isso, este é um lugar onde suam bastante.  Pronto, está cientificamente comprovado que este é realmente o cheirinho dos meus filhos!

Todos os dias, depois que eles dormem, vou até a cama de cada um, vejo se estão cobertos, se estão respirando (duvido que exista alguma mãe que nunca fez isso!), dou um beijinho de leve na bochecha, levanto a franja da testa deles e cheiro aquele lugarzinho especial.  Inspiro o aroma como se fosse o oxigênio que preciso para viver.  Encho os pulmões e invariavelmente meu coração fica disparado.  Tenho a sensação da felicidade plena e absoluta.  

Automaticamente começo a rezar e pedir a Deus que proteja meus anjinhos, para quem eu daria a minha vida um milhão de vezes, se fosse necessário.  Faço isso todas as noites com o Pedro e com o Thiago – olho, cubro, beijo, cheiro e rezo.  Cada um tem o seu cheiro.  O cheiro do Pedro é suave e o cheiro do Thiago é doce.  Reconheceria esses dois cheiros a quilômetros de distância.  São os cheiros que me dão energia e a certeza de que sou a mãe mais feliz do mundo. 

Vivo manifestando meu amor pelos meninos de forma bem explícita e muitas vezes exagerada.  Estou sempre beijando, abraçando, apertando, elogiando, dizendo que amo, enfim, não economizo carinho e esse é meu jeito de demonstrar o que sinto.  Mas o momento do “cheirinho” é diferente.  É suave, sagrado e intenso.  Eles não vêem, mas o amor que inunda o quarto é tão gigantesco, que com certeza nessa hora, seus sonhos são os mais lindos e doces que podem existir.

Meus cheirosos lindos!

“Button, Button”

Alguns valores são recorrentes na lista dos obrigatórios na educação de um filho (ou deveriam ser), como a importância de não fazer com os outros o que não gostaríamos que fizessem conosco.  Pelo menos este ensinamento sempre foi um dos que meus pais davam maior ênfase.  Meu avô já pregava: “Prefiro mil vezes ser prejudicado a prejudicar alguém”.  Meu pai, que cresceu ouvindo esta frase, nos repassou o ensinamento: prejudicar alguém, mesmo que isso implique em um benefício próprio, é uma das piores atitudes que um ser humano pode ter.

Quando somos criança, escutamos dos nossos pais o que é certo e errado e observamos seus exemplos,  mas tem outras coisas que acontecem que acabam validando estes ensinamentos de forma bem eficaz.  Nos anos 80, havia uma série de TV chamada “Além da Imaginação”, que apresentava episódios de suspense, terror e ficção científica, que me marcou profundamente.  Primeiro, porque eu tinha uns 12 anos, era super medrosa, e não sei como meus pais me deixavam assistir isso tão tarde da noite.  Depois, porque alguns episódios tinham um fundo moral que tornava a estória inesquecível.

Foi o caso do episódio  “Button, Button”, de Richard Matheson, que foi ao ar em 1986.  Me lembro perfeitamente de detalhes do filme, como as expressões dos atores, algumas falas e principalmente o final, que me deixou estupefata.  Contava a estória de um casal em crise financeira, que recebe a visita de um estranho que entrega aos dois, uma caixa de madeira com um botão vermelho e as seguintes instruções: se eles apertarem o botão,  irão receber uma grande quantia em dinheiro, porém, alguém que eles não conhecem irá morrer.  Tinham que decidir em 24 horas entre solucionar seus problemas ao custo da morte de uma pessoa desconhecida ou abrir mão do dinheiro para poupar a vida desta pessoa.

Desculpe, mas vou ter que contar o final da estória e a cena que ficou na minha cabeça até hoje, mais de 20 anos depois de assistir ao filme. 

A mulher resolve que eles devem apertar o botão.  O homem titubeia.  Ela então, abre a redoma que protege o botão e o aperta com convicção. Aparentemente nada acontece e eles vão dormir.  No dia seguinte, na mesma hora do dia anterior, o estranho volta à casa do casal para buscar a caixa e entregar uma mala cheia de dinheiro, conforme combinado.  A mulher então, pergunta se a tal pessoa que eles não conhecem morreu.  O estranho responde que sim, pois este era o acordo.  E então, ela pergunta por que ele vai levar a caixa embora e ele diz, calmamente, que vai fazer a mesma oferta para outra pessoa.  Ela se assusta e pergunta: “Para outra pessoa? Que pessoa?” E ele responde: “Para uma pessoa que você não conhece.  E ela também não te conhece”.  A mulher arregala o olho e a cena congela com uma música arrepiante ao fundo.  Ai.

A partir deste dia, o ensinamento “não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você” se solidificou dentro de mim de uma forma definitiva.  O fato irreversível de que a mulher que apertou o botão seria a próxima a morrer quando outra pessoa também tomasse a decisão de ficar com o dinheiro, ficou martelando por muito tempo na minha cabeça.  E até hoje reforça o valor moral que meus pais me ensinaram e que já estou repassando para os meus filhos: nunca prejudiquem ou façam mal a uma pessoa.  N U N C A !

Achei uma chamada da Globo de 1987 para a terceira temporada do “Além da Imaginação”.  Muito bom.

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