Sonho em pó

Ontem caiu do céu

Do céu de sol dourado

Dourado que ofusca os olhos e faz esquecer

Esquecer o anteontem e todo o antes de anteontem

Pé no chão, chão de seca, seca que racha

Racha o chão e os sonhos do menino

que sonha inteiro mas quando acorda o sonho quebra

Quebra no meio e depois em pedaços

Pedacinhos que viram pó, como a terra seca

Pó que gruda na cara e faz arder os olhos

e que a lágrima limpa fazendo listras

Listras molhadas nas bochechas vermelhas

inflamadas, inchadas de choro e do tapa estalado

No menino, no irmão, na irmã, no outro irmão

do pai que sente raiva quando vê murchar

o boi, o bode, o pé de milho, de feijão

Chora de fome, mas bate de raiva

De querer verde e só ver marrom

E não sonha mais como o menino

que também sente raiva, mas não bate

Só reza e espera que o pó vire barro

que o caminho árido volte a ser rio

que o boi desencoste da árvore sem folhas

que o bode berre e o milho apareça

que as bochechas parem de latejar

Beberia suas lágrimas se fossem doces

Doces como as lágrimas de Deus

Deus, que só se lembrou ontem

E chorou sobre o sertão.

Solidão

Se não soubesse cozinhar, não comeria

Se não soubesse cantar, nada ouviria

Se não soubesse rezar, amanhã não acordaria

Se não soubesse falar, que diferença faria?

Se não pudesse assobiar, nem o cão viria

Se não pudesse andar, nada o levaria

Se não pudesse pagar, mulher não conheceria

Se não pudesse sentir, a dor o arrebataria?

Se soubesse amar, a quem o amor daria?

Palavras de Chico

Uma Palavra (Chico Buarque)

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d’agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra

 

Sou apaixonada pela nossa Língua Portuguesa.  Chego a ter amor por algumas palavras.  Outras gosto por gostar, simpatizo, gosto de graça. 🙂

E quando duas ou mais palavras são combinadas perfeitamente?  A magia acontece.  Assim como“cheiro de flor”, “sopro de vida”, “amor de mãe”, “papel de carta”, “noite enluarada”, “alívio imediato”, “amor eterno”, que quando juntas, parecem ter nascido uma para a outra.  Fico até emocionada quando alguma frase consegue fazer esta combinação perfeita e virar poesia.  Uma frase singela quando bem construída, vira uma obra de arte, como esta que li em “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, e que me lembro até hoje:  

“O menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de sonho.” 

Não é lindo demais?  Ele apenas queria dizer que o menino estava acordando.  Só isso.  Mas como ele é Graciliano Ramos, o fez da forma mais poética possível.

Chico Buarque para mim, é um gênio na arte de juntar palavras.  Adoro seus livros e principalmente as letras de suas músicas, que combinam palavras inusitadas com um resultado lindo:

“no tempo da delicadeza” / “se enluaravam de felicidade” / “e pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz” / “que a saudade dói latejada” / “se na bagunça do teu coração, meu sangue errou de veia e se perdeu” / “prá lá deste quintal, era uma noite que não tem mais fim” / “a gente se desvencilhar da gente” / “com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar”. 

Assim como Graciliano Ramos, Chico consegue transformar frases em poesia.

As palavras me encantam pela sua sonoridade, significado ou apenas pela sua forma.  LIBÉLULA.  Uma palavra cheia de “éles”, praticamente um exercício aeróbico para a língua.  Linda na grafia e na sonoridade, é uma das minhas favoritas.

Aconchego, cafuné, singelo, primavera, poema, pássaro, ternura, jardim, encanto, framboesa, varanda, afago, doçura, alado, gaiola, estrela, poente, eterno, amora, emblemático, firmamento, pérola, bailarina, sagrado…adoro todas elas (e muitas outras que não me lembro agora!)

Gosto também de algumas palavras que não são muito usadas – usá-las pode parecer bem esnobe – mas são muito interessantes.  Palavras poderosas, que impõem respeito e que carregam um significado complexo e profundo. 

Resiliência: capacidade humana de sobreviver às grandes tragédias, se adaptar às situações adversas e resistir às pressões sem sucumbir.

Redenção: se redimir pelo sofrimento, se livrar de um mal mediante um sacrifício, libertação, salvação.

Subserviência: se submeter às vontades de outra pessoa, servir, ser condescendente, ter compulsão por obedecer e reprimir suas próprias vontades.

Resignação: aceitação passiva das contrariedades da vida, espera paciente de um resultado, conformidade diante dos acontecimentos.

Intermitente: o que não é permanente, o que é interrompido por períodos, intercalado.

Tá bom, tenho que admitir que a nossa língua também tem palavras bem feias e esquisitas…

Elixir, unguento, girino, coifa, quelóide, esôfago, sobrancelha, fronha, óbvio, equívoco, constirpação, trâmite, intrínsico, uivo, dorso, cérebro, frustração, bugalho, furdúncio, pungente…fora nomes de doenças e palavrões que não fica bem citar aqui.

Para finalizar, 3 videos com as minhas músicas preferidas do Chico – e ainda com alguns depoimentos dele de lambuja (nossa, essa palavra vai entrar também na lista das feias!) – e de onde tirei alguns dos fragmentos de poesia que citei no texto.

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