Inferno

Procurava o interruptor ou janelas que pudessem ser abertas. Tateando as paredes úmidas e emboloradas, esperava encontrar alguma fresta.  O ar estava acabando e nenhum sopro de oxigênio novo podia ser percebido. O frio era extremo, mas afinal, não devia ser quente, pelando? Fora o clima, todo o resto era como ele imaginava. Escuro, barulho, fedor. Todo o seu corpo formigava, cada parte era pinicada como vodu. Todas as dores daquele lugar eram suportáveis para que torturassem o maior tempo possível. Nada tirava os sentidos, nada anestesiava, nada terminava. A dor, a escuridão e o gelo permaneciam. Até quando? Se for a eternidade, para ele já tinha passado nas poucas horas que estava ali.

Sentou-se no chão irregular e áspero e a nova perspectiva fez o lugar parecer ainda mais terrível. Era assim que sua mãe o chamava, O Terrível. Por um instante, considerou que ela poderia também estar naquele pardieiro, condenada pela sua complacência com as maldades do único filho. Com este barulho todo, a pobre nem conseguiria cantar para passar a sua eternidade. Cantar era o que ela mais gostava de fazer. Mas neste lugar não cabem rimas e a única melodia que se ouve são gritos e choros desesperados.

O som forte não o incomodava como as agulhadas pelo corpo. Agora era a cabeça que formigava, mas nem assim a consciência da dor perpétua diminuía. Estava ali inteiro, sabia o motivo da punição e apesar do breu, era claro o seu destino. Merecia? Provavelmente. Não conhecia as leis de Lúcifer, mas deviam ser parecidas com as dos homens. O arrependimento era a libertação? Se sim, sua eternidade ia durar ainda muito tempo, talvez toda a eternidade.

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Nota

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